quarta-feira, dezembro 13

A Tribo dos Tipoassins

Publicada originariamente em 13 de janeiro de 2001
- Nossa! Você também pertence à tribo dos tipoassins?!

Rolava um papo supersério com um chegado, que me passava detalhes de como seria seu divórcio, tipo eu vou ficar com a casa da praia e o carro importado mas tudo bem ela pode ficar com o cachorro e se quiser com a casinha dele também, quando eu o interrompi com essa pergunta.

Meu conhecido não é de origem indígena. Melhor dizendo, deve ter aquele fiozinho de sangue índio que corre pelas veias de quase todos nós brasileiros (não é à toa que os americanos imaginam que no Brasil, em qualquer rua de qualquer cidade, há silvícolas travando guerra de flechas o tempo todo. E americano costuma odiar índios e flechas e tupiniquins e latinos em geral).

Expliquei ao meu amigo que essa tribo nem os irmãos Vilas Boas, famosos indigenistas, chegaram a conhecer. Ainda não está sequer catalogada nos compêndios de antropologia. Mas não era a uma tribo indígena que eu estava me referindo. Hodiernamente (eta palavrinha odiosa esta, um tanto quanto hedionda. E obsoleta.), "tribo" designa qualquer agrupamento de pessoas que se distinguem por uma característica comum, sem que tal distinção seja por origem étnica, como a princípio pode parecer. Há a tribo dos esquinredes, dos fanques, dos revimétal (como será o plural disto?). São as mais conhecidas. E todas têm alguma consangüinidade ou afinidade ideológica com os tipoassins. Eu mesmo redigi com absoluta naturalidade o parágrafo que começa com "rolava um papo supersério" porque, em certa medida, também tenho laços com a tal tribo. Não renego minhas origens.

É fácil reconhecer um legítimo tipoassim. Basta ficar atento ao vocabulário das pessoas. Experimente, por exemplo, girar lentamente o daio (do inglês "dial", que significa daio) do seu rádio FM. Ao percorrer menos de duas ou três estações, se tanto, você logo ouvirá um locutor esgoelando-se, berrando com voz esganiçada a seguinte frase:

- E aí, galeeeeeeeera? (ai, meus tímpanos!)

Pronto. Você já achou um autêntico representante dos tipoassins. Mais do que isso, você acabou de encontrar um dos maiores propagandeadores da cultura e dos costumes dessa gente.

Nas ruas, nos ônibus, nas escolas, onde você estiver, com certeza haverá alguém por perto que pertence à tribo. Você mesmo, quem sabe, ou alguém de sua própria casa pode ser um deles.

Creio que os tipoassins são seres dotados de extrema inteligência; afinal, são bons entendedores. Meia palavra basta para que todos entendam tudo. Uma reticência é uma sentença. São minimalistas do raciocínio, adeptos ferrenhos da lei do mínimo esforço, especialmente mental.

Quando você for à rodoviária de Campinas, por exemplo, procure sentar-se naqueles bancos de espera, próximo a um grupo de estudantes. Não importa que sejam da PUC ou da Unicamp. Você os identificará pela grande quantidade de mochilas e pela vestimenta. Eles só vestem roupa "Versáti", ou seja, calças jeans e uma camiseta "básica", que servem para qualquer ocasião. Tudo é muito "versáti", eles dizem, referindo-se à "versatilidade" dessa espécie de vestuário. Note que logo chegará outro, amigo deles, que os cumprimentará com o indefectível "e aí, galera".

Fique muito atento ao "papo que vai rolar". A certa altura, um deles passará a explicar alguma coisa aos demais. Imaginemos, por hipótese, que ele esteja contando o que pretende fazer no final de semana:

- Tipo assim, acho que vou pro sítio do meu avô, sei lá. Tá a fim, galera?

Outro perguntará mais sobre o tal sítio. E a resposta será tipicamente tipoassim:

- Ah, tipo assim. Tem lagoa... mil coisas.

E virão novas perguntas em linguagem tipoassim:

- Seu avô, tipo assim, planta alguma coisa lá?

- Tipo assim, meio que parece que ele meio que planta cana, sei lá.

A essa altura, uma garota do grupo vai dizer que conhece o sítio, pois já esteve lá certa vez.

- Eu superadorei! É mó legal. É dez! Tipo assim, sei lá. É super.

O agourento do grupo, aquele que sempre é do contra, vai dizer:

- Aí, manera! Lance mais besta, galera! Perder o finzão de semana no meio do mato, pisando em m... de vaca, meu? Qual que é, dá um tempo. Tipo assim, meio que programa de índio. Sei lá.

Chega a hora de descer para a plataforma 5, que o Caprioli prepara-se para sair. Alguém diz:

- Vam’nessa, galera, que o buzão já tá roncando.

E lá se vão os tipoassins, em bando, cuidando da preservação de sua cultura. Siga-os. Discretamente, sente-se num banco à frente dos que eles escolherem. Os tipoassins costumam viajar nas poltronas do fundão. E vão zoando a viagem toda. Curta o passeio. Ouvido neles! Não se esqueça de, no final, antes de descer do ônibus, dizer-lhes:

- Valeu, galera! Foi super!

Fui.

3 comentários:

Anônimo disse...

Teste

Anônimo disse...

Teste teste

Denise disse...

Estou aqui a ler os seus ecléticos artigos, e dando umas boas risadas em voz alta, em plena madrugada, enquanto O Alê ronca lá em cima e a Sabrina ressona aqui no sofá, do meu lado (com que custo ela caiu no sono hoje!). Mesmo sob o risco iminente de acordá-los, não consegui me segurar.
Parece-me que você chegou mesmo à essência dos Tipoassins. Genial!