24/04/2026

A rede social dos anos setenta

Crônica

Nosso passatempo predileto, meu e dos demais garotos dos anos setenta, era ler revistas em quadrinhos, chamadas gibis, um prenúncio da literatura que em breve me absorveria. Eu lia as revistas da Turma da Mônica (meu primeiro sonho de profissão foi trabalhar como desenhista da Maurício de Souza Produções) e da Disney — Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey Mouse, este sempre às voltas com seu amigo Pateta na caça aos bandidos de Patópolis ou envolvido em seu eterno romance com a doce Minnie, “rolo” que jamais superou a fase do namoro.

Era comum nessas revistas haver uma página com uma seção com o título “querem trocar correspondência“. Os leitores mirins escreviam uma carta à editora Abril e os nomes, endereços completos e idade dos interessados eram publicados. Iniciava-se assim uma pequena rede de contatos.

Eu tinha entre dez e onze anos quando enviei minha cartinha. Corria, portanto, o ano de 1974, talvez finzinho de 73. A carta, porém, só foi publicada quase três anos depois, quando eu já tinha treze, numa edição da revista do Mickey.

A capa trazia Mickey com uma lanterna na mão e seu inseparável parceiro Pateta perseguindo o simpático bandido Mancha Negra (percebe o sutil racismo estrutural?), que fugia subindo uma escada dentro de um túnel. Localizei na rede mundial de computadores a capa, que ilustra este texto, mas não consegui imagem da página que continha meus dados. Devo ter ainda a revista que comprei à época, guardada em algum escaninho em meio às tralhas que acumulo; qualquer hora dessas ela me aparece.

Essa distância de tempo entre a remessa da carta e a publicação fez com que eu viesse a receber cartas de leitores da idade que eu tinha quando enviei a solicitação. Pense na situação de um garoto de treze anos trocando cartas com meninos e meninas de dez ou onze! Por sorte, a maioria dos que se interessaram por trocar correspondência comigo foram garotos da minha idade ou próxima dela, exceto um, bem mais velho.

Lembro-me de um garoto chamado Marco Antônio Lobo, salvo engano da Mooca, em São Paulo — hoje, se vivo, um sessentão como eu; tinha treze à época —, que gostava de escrever sobre como brincava com seus vizinhos, sobre futebol e, especialmente, sobre pipas, que eu chamava de papagaios.

Numa das cartas ele até me ensinou a produzir cerol, uma mistura cortante de cola e vidro moído usada em linhas de pipa para cortar as linhas dos adversários — ou seja, dos demais empinadores. Lamentavelmente, esse expediente tem sido causa de mortes, sobretudo de motociclistas que, ao cruzar com uma linha na altura do pescoço, acabam sendo degolados. Perdi, não faz muitos anos, uma cliente e amiga de Facebook da cidade de Americana por conta desse tipo de conduta, que se elevou da mera irresponsabilidade à condição de crime.

Havia uma uma menina de catorze, Adriana Flávia Cavalcante da Costa, muito inteligente, que falava de assuntos mais sérios. Localizei uma jornalista com esse longo e pomposo nome, o que torna pouco provável que seja outra pessoa, mas não tive êxito nas tentativas de estabelecer contato.

Outra correspondente feminina era uma menina matogrossense de Corumbá, de nome Noirce Lopes da Silva. Lembro-me de ela ter-me contado que o pai era dono de um supermercado na cidade, ou mercadinho, talvez. Eu então trabalhava no boteco do meu tio, um estabelecimento registrado como “bar e empório” onde se vendiam tomates, cebolas, arroz, feijão, essas coisas de mercearia. Era também, de certo modo, um minimercado, o que criava em mim uma identificação com ela. Eu a localizei há alguns anos e trocamos breves mensagens pelo Messenger — se minha memória não me engana, hoje ela é médica.

Alcebíades era um baiano de quinze anos que me enviou um cartão postal de Salvador. Por aquela época, a garotada trocava cartas também para formar uma pirâmide, como essas que envolvem dinheiro, só que voltada ao intercâmbio de cartões postais.

O esquema funcionava assim: recebíamos uma carta contendo alguns nomes (com endereços completos), sobrepostos uns aos outros. O topo da pirâmide, ou seja, o nome que aparecia em primeiro lugar, era o destinatário a quem o receptor deveria enviar uma carta com um cartão postal de sua cidade; na carta, o remetente incluía o próprio nome na base da pirâmide, excluía o primeiro da lista e copiava os demais, mantendo a ordem, de modo que a pequena lista se multiplicava e os nomes subiam alguns degraus até que cada qual, ao seu tempo, chegasse ao topo, o que ocorreria algumas cartas depois da remessa do cartão. A chegada ao alto da pirâmide, em tese, garantiria o recebimento de uma fortuna de cartões postais.

Eu, sempre caxias, respeitava a lista e enviava um cartão de minha cidade, em geral de uma das belas praças centrais, a Cesário Motta (nome de uma personalidade local do final do século XIX que será personagem de um romance histórico que venho estruturando), mas jamais me tornei o milionário dos cartões postais, como prometia o esquema.

Havia também uma menina de Niterói, esta de onze aninhos, e uma de Guiné Bissau, cujos nomes me escapam. E havia um sujeito bem mais velho que se chamava José Ronaldo Bispo. Era um dos correspondentes mais frequentes, um paulistano que já tinha mais de vinte anos. Se não me falha a memória, era pianista, talvez professor de piano, que gostava de me dar conselhos.

Numa das correspondências ele me fez a célebre pergunta que se costuma fazer a todo garoto de treze, o que eu queria ser quando crescer. Eu, até então apaixonado por números, letras e desenhos, contei-lhe que queria trabalhar como desenhista da Maurício de Souza Produções, mas que também estava em dúvida entre engenharia e matemática.

Foi ele que percebeu algo em mim relacionado à comunicação e me respondeu, muito generoso, que eu poderia ser o que quisesse, e citou profissões nos ramos do jornalismo e da publicidade e propaganda — algo que jamais houvera passado por meus planos até aquele momento.

Não, ele nunca me escreveu nada que me inspirasse desconfiança. Nada disso que sei que o prezado leitor está pensando, tão comum nos dias de hoje — que à época também cheguei a pensar, embora desconhecesse o nome técnico que hoje circula na boca do povo. Ele jamais me chamou para ir a São Paulo, onde residia, muito menos ofereceu-se para vir à minha cidade, nem me pediu foto, nada assim. Ele me contava o que fazia e me dava conselhos, apenas isso.

Não fiz nem jornalismo, nem publicidade e propaganda; enveredei pelos caminhos tortuosos do Direito, mas dois anos depois do início das correspondências comecei minha vida de trabalho fora de casa num jornal de minha cidade — pequeno, portanto. Nele, escrevi textos jornalísticos e criei muita propaganda, especialmente em períodos de Natal e de aniversário da cidade. Não era nada profissional, por evidente. Eu tinha entre dezoito e vinte anos, mas procurava caprichar.


Capa da edição nº 299, de abril de 1977, da revista em que foram publicados meu nome, idade e endereço na seção “Querem trocar correspondência”.

Anos depois, tive meu próprio jornal e produzi alguns anúncios; por fim, uma revista, em 2005, que teve uma única edição... sempre me
faltou o talento para empresário. 

Enfim, a vida me conduziu às duas atividades sugeridas pelo correspondente paulistano, mas, ao fim e ao cabo, acabou me desviando para o Direito. E tudo desaguou na minha mais recente atividade, que ainda não posso chamar de profissional, a de escritor.

Era uma emoção receber as cartas, respondê-las e preparar o envelope para a remessa postal. Tornei-me frequentador da agência dos correios de minha cidade. Adorava adquirir os selos, passar a cola do tipo goma arábica que a empresa disponibilizava nos balcões e colá-los no envelope de bordas em que se alternavam o verde e o amarelo em barras a quarenta e cinco graus e que continha a inscrição “par avion” (o porquê do francês, jamais soube).

Assim era a rede social analógica que aproximava meninos e meninas nos anos setenta do século passado que adoravam escrever e trocar impressões sobre o cotidiano de cada qual. Nela, não havia espaço para o ódio.
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