05/06/2026

Rocinante sombrio, o filme

Conta-se que no início dos tempos literários, ao menos nos primórdios do romance tal como o conhecemos, vivia numa aldeia de La Mancha, no coração da Espanha, um fidalgo de compleição seca, rosto enxuto, pernas compridas e delgadas, que se deu a chamar de Quixote.

Dom Quixote de la Mancha, cujos miolos secaram de tanto ler novelas de cavalaria, decidiu sair pelo mundo praticando sua justiça particular munido de uma armadura enferrujada e um elmo remendado com papelão, montado num pangaré a que, depois de pensar por quatro dias, deu o sugestivo nome de Rocinante. E a escolha se deu porque, em seu conceito, o nome era “alto, sonoro e significativo”.

Rocinante, todavia, é sinônimo de rocim, vocábulo a respeito do qual nos diz o Michaellis que significa “cavalo pequeno, magro e fraco”.

No Brasil de 2026, esse tipo de animal tornou-se famoso graças a um filme brasestadunidense que tem por título, na língua preferida dos patriotas da bandeira alheia, “Dark Horse”, ao qual venho chamando de “Darquirrorse”, que na inculta, bela e derradeira flor do lácio significa pangaré negro. Mais precisamente, o título da película remete à ideia do azarão, do cavalo paraguaio que, no turfe, por puro lance de sorte, acaba por vencer uma corrida. 

Louvemos, de início, o acerto do nome, eis que pangaré paraguaio é referência ao ex-presidente que, por um tropeço da história, deu a sorte de vencer a eleição presidencial de 2018. O azarão chegou lá, e chegou com um corpo de vantagem, mas, por conta da tentativa de golpe que culminou no 8 de janeiro de 2023, está fora do páreo e assim estará pelos próximos vinte e sete anos. Nem na modalidade suipisteique (“sweepstake”), o bolão do turfe, alguém arriscará apostar de novo no bicho.

Não me tomem por contraditório. A despeito de reconhecer o acerto na escolha do nome do filme em homenagem ao ex-presidente, confesso que prefiro algo ainda mais significativo, por isso elegi “rocinante sombrio”, o cavalo que, mesmo pequeno, magro e fraco, veio do reino das sombras para assombrar o povo brasileiro.

E do esgoto em que vivia trouxe consigo, apinhados em seu dorso, a atual esposa e um bando de filhos, os machos numerados de Zero Um a Zero Quatro, assim chamados por ele próprio (à soturna potranca, chamou de fraquejada), o que um raciocínio lógico, puramente matemático, nos conduz a concluir que ele mesmo seria o Zero Zero.

E zero é, de fato, o número de sua sorte, porque zero foi tudo o que ele produziu enquanto respondeu como “ciô” (”C.E.O.”) do Brasil por quatro anos (menos um mês, o último, quando nosso matungo com histórico de alazão se entregou a profunda depressão e à erisipela até fugir, de mala, cuia e atestados falsos, para os Estados Unidos, à espera de um golpe de estado que não se consolidou).

Estimado leitor, estimada leitora, pergunto-vos se é de vosso conhecimento que, durante sua gestão, nosso rocim paraguaio tenha desenvolvido algum projeto sério, digno de nota, alguma politica pública que tenha partido de um planejamento de Estado, algo como o “minha casa minha vida”, o “luz para todos”, o “Prouni”, o “mais médicos”, de seu principal opositor. Zero, nada!

Nem vou incluir no cômputo desse vazio administrativo a ponte de madeira de dezoito metros reconstruída pelo Exército na BR-307, em São Gabriel da Cachoeira (AM), por R$255 mil, para não negativar o saldo e para que o caro leitor ou cara leitora não me tomem por debochado. Dita obra é aquela que ficou famosa por conta da inauguração a que nosso ex-PR, atual PR-Zidiário, esteve presente, evento cuja pirotecnia custou R$711 mil aos cofres públicos, quase três vezes o valor da própria obra.

Ao olhar para o cocho vazio dos frutos de sua absoluta improdutividade, nossa alimária presidencial decidiu tomar para si obras alheias, como a transposição do rio São Francisco. Tirou proveito do fato de que lhe sorrira a sorte com a possibilidade de inaugurá-la por inteiro, embora ele mesmo tenha participado de não mais que sete por cento da obra toda. Iniciada nos primeiros governos Lula, primeiro presidente da História que teve a coragem de tirar o projeto do papel desde que Dom Pedro II o concebera um século antes, teve executados 92% até Dilma ser tirada a fórceps da presidência.

Outro projeto que lhe caiu do céu feito maná direto no seu cocho foi o PIX. Concebido no governo Dilma, gestado pelo Banco Central durante os dois temerários anos do governo que lha sucedeu, o PIX foi dado à luz na gestão de Roberto Campos Neto, sob a presidência do rocinante sombrio, que não fazia ideia do que se tratava quando o inovador sistema de pagamentos já havia entrado em funcionamento.

Quem sai aos seus, diz o ditado, não cai distante da árvore. Zero Um e Zero Três foram recentemente aos Estados Unidos, primeiro o deputado, depois o senador, arquitetar um plano infalível para tirar o pai da forca, digo, da cadeia, e, de quebra, inviabilizar a reeleição do atual presidente. Essa, ao menos, foi a desculpa. A luz que se acendeu sobre o esgoto, no entanto, a partir do telefonema vazado entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, revelou que o filme em homenagem ao patriarca do clã não passava de açude destinado a receber dinheiro público canalizado para garantir a estadia de Eduardo e família nas terras de Tio Trump.

Observai o atento leitor, a atenta leitora. Flávio é candidato a presidente da República. Quando viu o irmão gabar-se de ter convencido o governo Trump a impor sanções ao Brasil, consubstanciadas na forma do tarifaço, já deveria ter-lhe dado um pito público pela demonstração inequívoca de que a família não está nem aí para os interesses do Brasil e dos brasileiros. Não só Zero Um aplaudiu o irmão como acabou ele mesmo indo até Trump para ao seu lado fazer uma fotografia de campanha. Do salão oval da Casa Branca saiu festejando medidas que incluíram o novo tarifaço e ameaças concretas ao brasileiríssimo PIX. 

Nosso Incitatus, o potro senador, tentou desmentir que tivesse negociado o PIX depois que viu despencarem seus índices de intenção de votos, mas eis que novamente o poldrico Zero Três surgiu no cenário para pregar sua substituição por um certo Zelle, mecanismo de pagamento instantâneo adotado nos Esteites (“States”, no original do idioma invejado pelos patriotas). 

Resumo da ópera bufa: o herdeiro do falso Messias e de seu fanático eleitorado acabou jogando fora o único “legado” (prestai atenção nas aspas) do governo do pai. Embora concebido no governo Dilma e gestado no de Temer, a criança só veio a nascer durante a triste era BolsoNero. Flávio incumbiu-se de lhe dar um banho e acabou por jogar fora a água da bacia com a criança junto — a única coisa útil que, como a flor de Drummond que rompeu o asfalto, brotou no governo do pai, que ele, forçando muito a barra, poderia chamar de sua.

Quanto à ideia de fazermos o Zelle, sou obrigado a fazer coro com o rocim Zero Três, o já consagrado camisa dez da seleção de Lula.  Também quero ver todos os brasileiros fazendo os “L” na próxima eleição.

26/05/2026

A querela

CONTO

Wílson e Edmílson conversavam durante o cofibreique — o intervalo para o café, dito em línguas estrangeiras — de uma palestra sobre a onda de feiquinius, mentiras em forma de notícias (nas mesmas línguas) que vêm inundando a sociedade brasileira, em especial pelas redes sociais. 

 — Está vendo aquele cara ao lado do bebedouro? — perguntou Wílson ao colega. 

 — Sim, o Dílson. É ele ali, tomando água. 

 — É isso que você acredita estar vendo? Edmílson estranhou a pergunta. 

Empertigou-se, esfregou os olhos, firmou a vista na direção do objeto do comentário e disse, com certo ar de gracejo: 

 — Não, eu não acredito. Eu estou vendo. É a pura realidade. 

 O outro cruzou os braços e riu o riso dos soberbos. 

 — Não, meu caro. Você, por alguma razão que se construiu em seu íntimo, está apenas convencido de que é o Dílson e que ele está tomando água. 

— Uai, se aquele ali não é o Dílson tomando água… quem é então? 

— Pode não ser o Dílson. 

 — Como assim? Olha lá, o cabelo comprido amarrado com fita, o corpo franzino, os olhos pretos olhando para o infinito. Dílson sempre teve esse olhar perdido. 

 — Ainda assim, pode não ser ele. Edmílson resolveu fazer troça: 

 — Irmão gêmeo? Não sabia que Dílson tinha irmão gêmeo. Como se chama? Quequeílson, Wílson!? Claro que é o Dílson! 

 — Quequeílson, não. Deixadílson, Edmílson. 

 — Ahahaha! Você, sempre espirituoso. 

 — Falo sério. Para ter certeza de que aquela figura, que de fato muito se parece com o Dílson, é ele mesmo, só perguntando — ponderou Wílson. 

 — Uai, então vamos até lá e resolvamos isso agora mesmo. Mas não precisamos perguntar, é ele. O próprio Dílson, bebendo água. Estou lhe dizendo! Mantendo a aura de superioridade, Wílson indagou: 

 — Está certo de que é água o que ele bebe? 

 — É água que ele bebe, com certeza. Olha lá, o galão enorme de vinte litros de água mineral. Olha, olha! Ele pegou um copo plástico do dispensador, baixou até ficar sob a torneira, acionou a torneirinha, esperou encher e agora está bebendo. Que dúvida você pode ter de que seja ele mesmo? 

 — É que pode não ser. Como pode não ser água. Tem certeza de que aquele galão é mesmo de água, e água mineral? 

 — Amododucéu! Você só pode estar brincando, Wílson. 

 — As coisas nem sempre são o que parecem, meu caro Edmílson. 

 — Você está negando a verdade, Wílson. Negando o óbvio, o que é notório, evidente! 

 — Ah a verdade! — suspirou Wílson. — A verdade, meu amigo, são muitas. Não existe uma só verdade. A verdade tem nuances que devem ser consideradas. 

 — Como assim, meu amigo? A verdade é uma só... 

 — O galão pode não ser de plástico. Ou não ter capacidade para vinte litros, seja do que for. A água pode não ser mineral, pode ser de torneira. Pode ser que nem seja água. 

 — Sim, quanto a isso, posso até concordar. Mas, no resto, veja bem. Dílson, cabeludo, magrinho, olhos pretos, jeitão moleque de se vestir… Copo, galão, torneira… Qual a dúvida?!? 

 — O cara da palestra estava dizendo até agora. Você estava lá, está aqui, você ouviu. Certamente estava prestando atenção. Para ter certeza de que um fato existiu, é preciso examinar os elementos de prova. 

 — A prova testemunhal é um meio de prova. E eu estou vendo, estou dando meu testemunho. Você está vendo. É Dílson tomando água. 

 — A prova testemunhal, você sabe… É a… Enfim, depende sempre dos pendores ideológicos da testemunha, das suas crenças, da sua formação intelectual, cultural. Da sua capacidade cognitiva. Do seu olhar cuidadoso ou não. Da sua honestidade! 

 — Sim. Trazendo para o caso concreto, o que você propõe? Irmos até lá e indagarmos ao Dílson se ele é mesmo o Dílson? Se a água que ele bebe é mesmo água? Se o galão de plástico é… 

 — Sim, sim. Talvez tenhamos que recorrer até a um exame pericial para nos certificarmos de que a água é água, e é mineral; de que o galão é galão, que é de plástico, e que comporta mesmo vinte litros. E até que Dílson é Dílson! A palavra de um perito haverá de ser também de grande valia para deslinde desta nossa celeuma, mas não temos perito disponível neste momento para afirmar isto ou aquilo. 

 — Você está exagerando, Wílson. Vamos lá conversar com ele. É o que basta. Tiramos essa dúvida, que só existe na sua cabeça, agora mesmo. E ponto! 

Caminharam, resolutos, cada qual carregando suas convicções. Ou a ausência delas. Aproximaram-se. Edmílson se adiantou: 

 — Olá, Dílson, como vai? Você acredita que o Wílson aqui está duvidando de que você é você? E de que essa água que você está tomando não é água, e que esse galão não é de plástico… 

 — Boa tarde, senhores — respondeu seco o rapaz magérrimo de cabelos compridos, presos com uma fita rosa. 

 Ele olhou para a dupla que o abordava por longos segundos, como se tentasse compreender o que acontecia. Examinou-os das cabeças aos pés, da esquerda à direita, como se não os reconhecesse. Por fim, disparou: 

 — Seu amigo tem razão, de fato eu não sou o Dílson. Sou Adílson, irmão gêmeo dele. Desde crianças temos hábitos semelhantes que trouxemos à idade adulta, como cultivar este rabo-de-cavalo, este estilo despojado de vestir… 

Edmílson estancou, estupefato. Nem mesmo Wílson acreditava no que ouvia; não se conteve e, para surpresa do litigante na quezília, indagou: 

 — Como assim, você não é o Dílson? Eu nunca soube que Dílson tivesse um irmão, ainda mais gêmeo… 

Edmílson estava perplexo com a reação inesperada do amigo. O alvo da discórdia reagiu com serenidade. Voz tranquila, disse: 

 — Não entendo sua razão. Sou Adílson, irmão gêmeo do Dílson. E, de fato, não estou tomando água, mas suco de limão. E este galão, observem bem, é de vidro. 

O ar soberbo que Wílson ostentara até há pouco dissipara-se. Já não tinha convicção do acerto de suas convicções. Decidiu tirar a prova, fazer ele mesmo o exame pericial que, nas circunstâncias, prescindia de um experto juramentado. Pegou um copo no dispensador, encheu-o com o líquido, sorveu-o. 

— É água! — gritou exultante, como Arquimedes bradando “eureka!” — E você, evidentemente, é o Dílson querendo nos enganar — comemorou, rindo e batendo nas costas do rapaz que se tornara o centro da controvérsia. 

 — Arrá, malandro! Quase me pegou. 

Wílson havia recuperado a segurança de antes. Edmílson sentia o cérebro fervilhar. O magricela cabeludo manteve o olhar impassível, as expressões rígidas na face, o corpo calado no gestual. Ingeriu o que restava do líquido no copo que tinha à mão e comentou, mirando os olhos de Wílson: 

— Se você acredita nisso… 

 Deu-lhes as costas e caminhou lentamente para bem longe dos querelantes. 
 _____________ 

 
“A Verdade saindo do poço” (1896), de Jean-Léon Gérôme

17/05/2026

Um dia de Zé Ruela

 CRÔNICA 

(Relato de um fato real)

Fui a Taubaté apenas para retirar o resultado de um exame numa clínica local. Foi minha segunda ida à terra de Monteiro Lobato, Amácio Mazzaroppi, Hebe Camargo, Cely Campelo e outras figuras mais notáveis, como Douglas, meu ex-chefe de primeira instância, e André, atual, de segunda, ambos da influente família local, os Sales. Ou Salles.

Na primeira vez, fui para fazer o exame; meu filho foi comigo. Desta feita, um agradável sábado de sol, Luciana quis aproveitar para fazer um passeio e conhecer a cidade. Ao retirar o carro para sair do estacionamento da clínica, a proteção do kart (será kart ou cardã? Nunca sei) se soltou e veio raspando o chão durante a ré.

Passei numa oficina para pedir um socorro — fixar a peça ou só retirá-la para na segunda-feira eu levar o carro à concessionária. Um funcionário, rapaz muito simpático e gentil, prontificou-se a fazer o necessário. Estávamos numa loja de revenda de pneus, de nome Muniz, de uma rede com 220 unidades em diversas cidades. Ele elevou o carro e nos pediu que aguardássemos na sala de espera.

Algum tempo depois ele me chamou, mostrou que tinha retirado a roda direita para poder fixar o protetor e que tinha percebido um barulho estranho no eixo entre a roda e uma tal trizeta. Mencionou a trizeta, a tulipa, a coifa, uma série de rebimbocas da parafuseta que não faço ideia do que são e para que servem.

Disse que seria necessário trocar os eixos ou eu poderia ter problema durante o uso do automóvel, que poderia ser logo ao sair da loja ou demorar algum tempo. Que precisava trocar a trizeta, a tulipa e outros componentes próximos. Que era assim mesmo, por se tratar de carro automático (Toyota Yaris).

Pedi para orçar, R$1.800,00 à vista.

Torci o nariz, mas ponderei. Calculei possíveis riscos, o medo de ficar na estrada, e caí na besteira de aprovar.

Enquanto ele fazia o serviço, fomos a um restaurante próximo para almoçar. Ao final, voltamos à oficina e para nossa surpresa o rapaz alegou ter encontrado outro defeito, agora no sistema de rolamentos. E disse que já havia trocado as peças, compradas de um fornecedor próximo. Mostrou umas engrenagens mergulhadas numa bacia com óleo e mencionou que era para ter mais óleo de câmbio do que aquela pequena quantia que ele me mostrava.

Eu, claro, fiquei indignado por ele ter mexido sem prévia consulta, e ele já me apresentou prontos dois orçamentos para pagar em parcelas, um deles em quinze vezes de quase seiscentos reais — total de quase nove mil reais!

Perguntei pelo valor à vista, R$5.500,00. Indaguei se ele poderia desfazer a troca e me deixar o carro na rua, para que eu acionasse o seguro ou contratasse um guincho, ele disse que sim, mas ponderei que o seguro poderia recusar por não se tratar de acidente (confesso que nunca me lembro das coberturas seguradas). Enfim, optei por negociar. Propus cinco mil à vista, o rapaz aceitou prontamente.

Fiz a proposta porque eles não me davam alternativa, haja vista que o primeiro serviço já estava pronto e o segundo demandava reinstalar engrenagens que ele dizia estar comprometidas. Na viagem da volta, minha esposa resumiria o caso: o “médico” me abriu a barriga, disse que a cirurgia custaria quase dez mil reais e me perguntou se eu pagaria o preço ou se iria embora assim mesmo, com a barriga aberta.

Saí de lá com a dolorosa sensação de que acabara de ter sido feito de otário. Um Zé Ruela entre ruelas, porcas e rolamentos que não sei se são verdadeiros ou falsos, se são originais, se de boa ou má qualidade, se as peças retiradas eram mesmo as do meu carro ou outras, se de fato estavam com defeito e ofereciam risco...

Detalhe: eu havia levado o carro à revisão recentemente, dois meses atrás, em 11 de março! E fiz a revisão na concessionária Toyota, o que já me havia custado os olhos da cara, R$3.600,00. Não percebi nenhum problema no carro desde então.

O fato concreto é que fui a Taubaté apenas para retirar o resultado de um exame, que eu bem poderia ter-me contentado com o disponível pela Internet ou aguardado que o amigo e colega Douglas, que lá reside, pegasse e trouxesse para mim, ele que, muito solícito, já havia topado me prestar esse favor. Voltei de lá com um desfalque de cinco mil reais no meu patrimônio financeiro. E uma colônia de cinco mil pulgas atrás da orelha.

O Zé Ruela aqui merece!


Trizeta, tulipa, ruelas e rebimbocas da parafuseta (imagem da Internet)

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Falo sobre o livro nesta crônica: Entrevista sobre o meu livro”.

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25/04/2026

Fidelidade era no fio do bigode

Este texto nasceu de um comentário que fiz à crônica “Eu traí o meu barbeiro”, do Rodrigo Padrini (depois de ler a minha, recomendo ler a dele, aqui).

Dou-me por feliz por ter vivido esses anos todos sem jamais ter encontrado um Ivan Iákovlevitch pela frente, o barbeiro de São Petersburgo que num certo dia, sentado à mesa de casa ao lado da esposa para degustar o café da manhã, ao passar a faca para cortar o pão encontrou um nariz no meio de onde só deveria existir manteiga. Era o narigão do major Kovaliov, a quem o desastrado profissional da navalha atendera na véspera. Assim começa “O Nariz”, divertida novela do russo Nikolai Gógol escrita em 1836.

Uma das poucas lembranças que tenho de meu pai é do dia em que ele me levou ao barbeiro na pequena Rafard, cidade onde nascemos eu, Tarsila e Paulo Betti, dentre outros mais notáveis, como o dono da barbearia de sobrenome Abel — o prenome sempre me foge.

Não tive como adotá-lo, “fidelizá-lo” à moda dos atuais prestadores de serviços do ramo, pois eu mal havia completado cinco anos de idade e meu pai morreu pouco depois. Isso remonta ao ano de 1968. Mudamo-nos eu, minha mãe e minha irmã Eliana para a vizinha Capivari logo em seguida.

Meu primeiro barbeiro “fidelizado” foi Geraldo, que mantinha estabelecimento bem defronte à nossa casa, no bairro conhecido como Buraco da Onça, em Capivari. Geraldo Barbeiro, como era conhecido, havia tido uns problemas com a lei, algo como extrair dentes de ouro de moradores do pacato condomínio dos jazigos perpétuos durante o sepulcral silêncio noturno, mas, afinal, quem nunca, não é mesmo? Em compensação, o cirurgião-dentista dos campos santos tocava sanfona que era uma beleza. Grande músico, melhor ainda como profissional da barba e do cabelo, bigode incluso.

Desde então, meus sempre revoltosos cabelos passaram por múltiplas mãos de tesoura, entremeadas por longos períodos de “fidelização”, como o saudoso “Português“, dono de farto bigode que tinha salão na área externa do mercado municipal; depois vieram o Dêividi e o Cláudio, todos em Capivari, já autoproclamados cabeleireiros, e seu Henrique, um senhorzinho muito simpático de Americana, onde residi por nove anos. A fidelidade, até então, prescindia de cartões, contratos escritos ou agrados que fossem além de um bom serviço prestado. Era mesmo à base do fio do bigode. No máximo, um cafezinho.

Hoje em dia, estou oficialmente fidelizado, sem aspas, não com um barbeiro, mas com uma dessas bárberes (“barbers”) modernas que de uns anos para cá se proliferaram pelas cidades com esse pedante nome inglês que ofende a tradição brasileira de profissionais como o inesquecível Abel de Rafard.

Recentemente até tive um corte gratuito, fruto de minha fidelidade anotada num cartãozinho em que a atendente colou um adesivo a cada novo atendimento. A cada dez adesivos, o serviço é gratuito. Fica no mais popular xópin de São José dos Campos, um salão dotado de cinco ou seis cadeiras em que se revezam vários profissionais.

O estabelecimento tem nome espanhol, “Don Guillermo”, uma chiqueza que só. Eles me enviam mensagens pelo vatizápi para me contar da alegria de terem me recebido em seu salão, para pedir avaliação dos serviços prestados e para me dizer que estão com saudades de mim, já que não mais apareci desde a última visita na semana anterior, como se cortar cabelos e aparar barbas fossem necessidades como comer o pão nosso de cada dia, esporte perigoso que levou Ivan Iákovlevitch a encontrar o nariz do seu freguês no miolo de um deles.

Oferecem água, café e até cerveja, têm sempre uma boa e agradável seleção de músicas da melhor qualidade, MPB e estrangeira, e cuidam dos meus cabelos e de uma barba que tentei em vão cultivar durante toda a vida e que só vingou agora, quando os fios já vêm branquinhos de fábrica. Esta barba tardia serve para me conferir novo disaine (“design”), uma solução barata de harmonização facial que me dá ares de intelectual, o que é muito apropriado a este escritor recém-nascido que há poucos meses lançou o primeiro livro impresso (”O Onomaturgo e Outras Histórias“, de contos, pela editora Rua do Sabão).

São tantos os profissionais do estabelecimento que é difícil repetir algum que já tenha me atendido. Além do corte e do cuidado com a barba, eles aquecem uma toalha e com ela me vedam os olhos. Chamam a isso de “barboterapia” e, de fato, é um tratamento tão relaxante que beira ao terapêutico.

Desde a infância, desde que passei a frequentar barbearia sem que fosse levado por meu pai, ausente por força do óbito, ou minha mãe, por já me considerar maduro o suficiente, a minha grande dificuldade é responder à inevitável pergunta que todos fazem logo que me sento na cadeira: “como quer o corte?” Até hoje, do alto dos meus 62 anos, não aprendi a responder. Daí a importância da fidelização à moda antiga: de tanto me cortar os cabelos, o mesmo profissional já sabia o que fazer e dispensava a pergunta.

A novidade é a barba, cujo modo de fazer-lhe o contorno atende pelo nome próprio de “italiana”, como recentemente aprendi com um dos profissionais do “Don Guillermo”. T’aí mais uma demonstração de que, de fato, dar nomes às coisas facilita muito a vida em sociedade.

Por via das dúvidas, procuro jamais me dirigir ao barbeiro com o nariz empinado. Não quero correr o risco de ele aparecer no pão do navalha que vai me atender.

Capa do livro “O Nariz”, de Nicolai Gógol (1836), editado pela Antropofágica

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Falo sobre o livro nesta crônica: Entrevista sobre o meu livro”.

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