Crônica memorialística
Espreguiçava-se o ano de 1970. Eu vivia às voltas com minhas crises de bronquite. Numa delas, enquanto forçava o pulmão em busca de ar e aguardava pela inalação no saguão de espera do hospital, ouvia a algazarra dos alunos da escola em frente.
— Ano que vem você estará aí, com eles — disse-me minha mãe para me animar.
A escola de meus primeiros anos tinha algo de, como direi, majestático. Grandioso, soberano, respeitável. Algo de assustador e, ao mesmo tempo, atraente.
No primeiro dia, dona Rosinha, moça bonita de cabelos e olhos pretos, sempre disposta a um abraço, levou-nos a conhecer a vastidão dos pátios. Era um conjunto de dois grandes prédios e um menor, desapegado e no meio dos demais. Cada um dos grandes tinha seu próprio pátio. Entre os banheiros, masculinos de um lado e femininos do outro, havia em cada qual um palco, um espaço em patamar ao qual acessávamos por duas breves escadas laterais.
No prédio defronte o hospital estudavam os alunos menores. Era o “Anexo”, simplificação de um nome pomposo: Curso Primário de Aplicação Anexo ao Instituto Estadual de Educação Estadual Padre Fabiano José Moreira de Camargo de Capivari — a ideia era, certamente, formar alunos “aplicados”. No de cima, maior, os alunos da quinta série ao terceiro colegial.
O prédio apartado compunha-se de duas salas contíguas nas quais os alunos da quinta à oitava séries tinham aulas de artes. Artes industriais, que era para deixar claro que nos preparavam para o mercado de trabalho. Os militares estavam no poder.
A professora levou a garotada até o palco do prédio de cima, onde era possível sentarmo-nos no patamar. Falou sobre a escola, a importância da educação para nosso futuro e da alegria de nos ter como seus alunos. Entre os colegas, estava Ana Maria, de cabelos crespos e cara de choro. Foi a primeira menina por quem me interessei na escola. A carinha de choro logo me encantou. Depois dela viriam muitas.
Finda a palestra e conhecidas as instalações externas, dona Rosinha nos levou de volta ao prédio de baixo. Antes da sala de aula, fomos conhecer a diretoria. Recebeu-nos o próprio diretor, professor Dirceu, homem de rosto redondo, cabelo ralo e alinhado, olhos claros, miúdos. Ele ergueu um livro e perguntou quem de nós, menos Valmir — que era repetente, o mais velho da turma —, sabia o que estava escrito na capa. Vencendo a timidez, ergui o braço e li: “livro do diretor”.
A diretoria ficava no térreo. Subimos uma escada em dois lances e chegamos à sala de aula. Ao menino de sete anos de idade, a escada era gigantesca, majestosa, interminável.
Ocupamos nossos lugares. Nunca vou me esquecer do cheiro daquele primeiro dia, cheiro de framboesa — do chiclete, talvez. Tampouco do cheiro do lanche que minha mãe houvera embrulhado num guardanapo de pano e depositado na lancheira de plástico que eu carregava a tiracolo. No intervalo a que chamávamos hora do recreio, comi o lanche e bebi a mistura de água com xarope de groselha, que trouxera na pequena garrafa posta num compartimento da lancheira. A tampa servia de copo.
Aos poucos, aprendemos o básico da alfabetização, embora parte dele eu já soubesse. Lia as letras de forma, maiúsculas e minúsculas, que aprendera observando os fregueses do bar de meu tio que comentavam notícias do jornal Última Hora (já contei a respeito na crônica Garimpando dicionários, esta), mas não tinha ainda domínio das cursivas. Foi com dona Rosinha que aprendemos a técnica do onda vai, onda vem, para escrever a letra c. Seguíamos o Caminho Suave, a cartilha de Branca Alves de Lima que atravessou décadas no ensino público — e há desavisados que ainda insistem em responsabilizar Paulo Freire!
No segundo dia, quando a professora entrou na sala, eu e Ana Maria disputávamos uma carteira. Não discutíamos, não brigávamos, apenas nos mantínhamos em pé, cada qual de um lado, aguardando que uma autoridade resolvesse a querela. Dona Rosinha mandou que nos sentássemos, mas estávamos irredutíveis, cada qual senhor e senhora das próprias razões. Era ali, afinal, que eu havia me sentado no dia anterior, dizia eu, ainda a anos de ter noções de propriedade, posse e usucapião. Ana dizia o mesmo. A solução foi determinar que cada um ocupasse outras carteiras e assim fizemos, pondo fim a uma causa em que não houve vencedor nem derrotado.
A saída das aulas era um tropel com todas as turmas tomando ao mesmo tempo a escadaria. Numa ocasião, Júnior, do segundo ano, tropeçou em meu pé e rolou escada abaixo. Nada grave, senão e apenas o olhar raivoso que ele dirigiu a mim. Júnior era um menino cujo pai o trazia à escola e ali ficava observando a garotada no pátio, de olho no filho, até que o sinal nos convocasse às classes. Anos depois, eu e Júnior nos tornaríamos colegas de vereança e adversários políticos.
Não tardou para descobrirmos que o espaço em que foram construídos os prédios havia sido um cemitério de meados do século anterior até o início das obras. O esqueleto completo de uma pessoa, ali mesmo descoberto durante as escavações, havia sido colocado e permanecia exposto no laboratório, a sala das aulas de química que ficava no Anexo, a que só teríamos acesso a partir da quinta série.
Apelidada Mafalda, a caveira exposta numa caixa com tampo de vidro que lembrava um caixão em pé, me assustava. Não gostava de ficar ao lado dela, sequer de olhar para a defunta. Eu pensava na pessoa cuja alma um dia lhe dera vida e emprestara o corpo. Quem teria sido, como teria vivido?
Havia também a loura do banheiro, uma moça bonita que às vezes era vista nos galhos de uma árvore gigantesca que ficava ao lado do portão dos fundos da escola. Nunca a vi, nem ali, nem no sanitário. Soube depois que ela residia no espelho do banheiro, na parte onde se escondem todos os reflexos e seus mistérios.
Quem víamos de vez em sempre, de carne e osso, trepado nos galhos da árvore, era o Tarzã. De batismo era Paulo, um menino pouco mais velho, portador da síndrome de Down, à qual então chamávamos de “mongolismo” — palavra que se tornou inconveniente, caiu em desgraça e, por fim, viu-se transformada em incorreta. Politicamente incorreta. Não era aluno, mas vizinho e frequentador da escola. Promovia sua inclusão social por sua própria iniciativa, décadas antes de essa ideia se tornar política pública. Sem camisa e com óculos de aro preto e lentes grossas, ele subia na árvore e do alto dava o grito do Tarzã, ó-uó! Uó-uó-uoóóó!
Os anos se seguiram com a sem pressa de um bicho-preguiça. Não sei em que momento se transformaram em macaco, lépido e brincalhão; depois em leopardo, veloz e voraz. Hoje tento segurar o voo da águia que, em suas asas, me leva para um horizonte cada vez mais próximo.

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Luís Antônio Albiero
