09/03/2026

Gata na chuva

CONTO de Ernest Hemingway. Tradução: Luís Antônio Albiero (adaptações a partir do Google Tradutor)

Luís Antônio Albiero
mar 08, 2026

Havia apenas dois americanos hospedados no hotel. Eles não conheciam nenhuma das pessoas com as quais cruzavam nas escadas, no caminho de ida e volta para o quarto.

O quarto deles ficava no segundo andar, de frente para o mar. Também ficava de frente para o jardim público e para o monumento da guerra. Havia palmeiras grandes e bancos verdes no jardim público.

Quando fazia bom tempo, havia sempre um artista com seu cavalete. Os artistas gostavam da maneira como as palmeiras cresciam e das cores brilhantes dos hotéis defronte os jardins e o mar. Italianos vinham de muito longe para apreciar o monumento da guerra. Era feito de bronze e brilhava na chuva. Estava chovendo. A chuva gotejava das palmeiras.

A água formava poças nos caminhos de cascalho. O mar quebrava em uma longa linha na chuva e deslizava de volta pela praia para subir e quebrar novamente em uma longa linha na chuva. Os automóveis tinham desaparecido da praça ao lado do monumento da guerra. Do outro lado da praça, um garçom parado na porta do café olhava para a praça vazia.

A esposa americana estava na janela, olhando para fora. Lá fora, bem embaixo da janela, uma gata estava agachada sob uma das mesas verdes, das quais pingava água. A gata tentava se encolher o máximo possível para não ser atingida pelas gotas.

“Vou descer e pegar aquele gatinho”, disse a esposa americana.

“Eu faço isso”, ofereceu-se o marido, da cama.

“Não, eu pego. O pobre gatinho lá fora, tentando se manter seco debaixo da mesa.”

O marido continuou lendo, deitado com apoio em dois travesseiros aos pés da cama.

“Não vá se molhar”, disse ele.

A esposa desceu as escadas e o dono do hotel levantou-se e curvou-se quando ela passou pelo escritório. Sua mesa ficava no fundo do escritório. Ele era um homem idoso e muito alto.

Il piove”, disse a esposa. Ela gostava do dono do hotel.

Si, si, signora, brutto tempo. Está muito ruim o tempo.”

Ele estava em pé atrás da sua mesa, no fundo da sala pouco iluminada. A esposa gostava dele. Gostava da extrema seriedade com que ele recebia qualquer reclamação. Gostava da sua dignidade. Gostava do jeito como ele queria servi-la. Gostava do jeito como ele se sentia sendo hoteleiro. Gostava do seu rosto envelhecido e pesado e das suas mãos grandes.

Curtindo-o, ela abriu a porta e olhou para fora. Chovia mais forte. Um homem com uma capa de borracha atravessava a praça vazia em direção ao café. A gata estaria por ali, à direita. Talvez pudesse seguir por baixo do beiral. Enquanto estava parada na porta, um guarda-chuva se abriu atrás de si. Era a camareira que cuidava do quarto deles.

“Você não pode se molhar”, ela sorriu, falando em italiano. Claro, o dono do hotel a havia enviado.

Com a camareira segurando-lhe o guarda-chuva, ela caminhou pela trilha de cascalho até chegar à janela. A mesa estava lá, lavada de verde brilhante pela chuva, mas a gata havia sumido. De repente, sentiu-se decepcionada. A camareira olhou para ela.

Ha perduto qualque cosa, signora?

“Havia um gato”, disse a garota americana.

“Um gato?”

Si, il gatto.

“Um gato?”, riu a camareira. “Um gato na chuva?”

“Sim”, disse ela, “debaixo da mesa”. Depois, “Ah, eu o queria tanto. Eu queria um gatinho”.

Quando ela falou em inglês, o rosto da camareira se contraiu.

“Vamos, Signora”, disse ela. “Precisamos voltar para dentro. A senhora vai se molhar.”

“Acho que sim”, disse a garota americana.

Elas voltaram pelo caminho de cascalho e entraram pela porta. A camareira ficou do lado de fora para fechar o guarda-chuva. Quando a garota americana passou pelo escritório, o padrone curvou-se da sua mesa. Algo se sentiu muito pequeno e apertado no íntimo da moça. O padrone a fazia se sentir muito pequena e, ao mesmo tempo, realmente importante. Ela teve uma sensação momentânea de ser alguém de suprema importância. Subiu as escadas. Abriu a porta do quarto. George estava na cama, lendo.

“Conseguiu pegar o gato?”, perguntou ele, largando o livro.

“Tinha desaparecido.”

“Onde será que foi parar”, disse ele, fechando os olhos da leitura.

Ela se sentou na cama.

“Eu o queria muito”, disse ela. “Não sei por que eu o queria tanto. Eu queria aquele pobre gatinho. Não é nada divertido ser um pobre gatinho na chuva.”

George estava lendo novamente.

Ela foi até a penteadeira e sentou-se em frente ao espelho, observando-se com o espelhinho de mão. Examinou seu perfil, primeiro de um lado e depois do outro. Em seguida, observou a nuca e o pescoço.

“Você não acha que seria uma boa ideia se eu deixasse meu cabelo crescer?”, perguntou ela, olhando novamente para seu perfil.

George olhou para cima e viu-lhe a nuca, o cabelo cortado rente como de um menino.

“Gosto dele do jeito que está.”

“Estou tão cansada dele”, disse ela. “Estou tão cansada de parecer um menino.”

George mudou de posição na cama. Ele não havia desviado o olhar dela desde que ela havia começado a falar.

“Você está bonita p’ra caramba”, disse ele.

Ela colocou o espelho sobre a cômoda, foi até a janela e olhou para fora. Estava escurecendo.

“Quero prender meu cabelo bem firme e alisado, fazendo um nó grande na nuca, que eu possa sentir”, disse ela. “Quero ter uma gatinha para sentar no meu colo e ronronar quando eu a acariciar.”

“É mesmo?”, disse George da cama.

“E eu quero comer em uma mesa com meus próprios talheres de prata e quero velas. E quero que seja primavera e quero pentear meu cabelo em frente a um espelho e quero uma gatinha e quero roupas novas.”

“Oh, cale-se e vá ler alguma coisa”, disse George. Ele estava lendo novamente.

Sua esposa estava olhando pela janela. Já estava bastante escuro e ainda chovia nas palmeiras.

“De qualquer forma, eu quero uma gata”, disse ela, “eu quero uma gata. Eu quero uma gata agora. Se eu não puder ter cabelo comprido ou alguma diversão, posso ter uma gata.”

George não estava prestando atenção. Ele estava lendo seu livro. Sua esposa olhou pela janela a praça onde a luz havia se acendido.

Alguém bateu à porta.

Avanti”, disse George. Ele olhou por cima do livro.

Na porta estava a camareira. Ela segurava uma grande gata de pelagem casco de tartaruga, que trazia bem junto ao corpo, e a balançava contra si.

“Com licença”, disse ela, “o padrone pediu-me para trazer isto para a Signora”.


Gato com pelagem casco de tartaruga (por Coffeeguy101 - Obra do próprio, CC BY-SA 4.0 - Fonte: Wikipedia)


28/02/2026

Memórias de um advogado bissexto (#62)

09/02/2026

Bem-vindo(a) à minha Casa Literária "Casa Literária"

Entre e sinta-se em Casa

Prezado amigo, prezada amiga.

Criei minha “Casa Literária” como um espaço destinado a abrigar, de forma ordenada, minha produção no âmbito da literatura. Migrei para ela tudo o que estava esparso pelo Facebook, nos meus vários blogues e na plataforma Circle, primeira tentativa de organizar uma “Casa”. Optei por fixá-la no Substack.

Nela, reúno meus artigos, minhas crônicas, meus poemas, os meus contos mais recentes (os antigos estão no livro “O Onomaturgo e Outras Histórias”, que lancei pela editora "Rua do Sabão” em 19 de julho de 2025 — dia em que, como venho dizendo desde então, “nasci” como autor — veja abaixo onde e como adquiri-lo) e impressões variadas e dispersas, como mais um especialista-em-tudo que sou e, como tal, ansioso por dar palpite sobre qualquer coisa.

A criação literária é, a princípio, um ato solitário, egoístico, um tanto narcísico. Eu começo a escrever, primeiramente, para dar vazão a uma pulsão íntima, um desejo somente meu, incontrolável. Eis a face e a fase egoísta da escrita.

Em seguida, quase sempre sem ao menos esperar pelo sétimo dia, cuidado que teve Deus ao criar o mundo, dou a obra por boa e acabada e, a partir desse meu juízo, sinto que está à altura de ser lida pelos outros — ou seja, por todos os demais que, por óbvio, não sejam eu mesmo. Aqui, o aspecto narcísico. Acredito-me tão bom no que faço que me acho digno de ser lido por outros.

O que me contém, por vezes, é a sensação de que o que tenho a dizer, e que o digo por intermédio dos meus textos, será apenas mais uma voz na multidão. Que diferença fará, para a Humanidade, para o público leitor, para minha bolha de amigos, o meu rasteiro pensamento? Ainda assim, o Narciso que vive dentro de mim fala mais alto e se impõe.

Postas tais considerações, chamo a sua atenção para outros aspectos do ato de escrever e da produção literária.

Primeiro, por mais egoística e narcísica que seja a criação, o autor sempre reserva, ou pode reservar, quiçá deva, um espaço indelimitável para a imaginação do leitor. Assim é, ou deve ser, em todos os textos, de qualquer gênero, em especial nos contos, pelos quais sou apaixonado. O leitor há de ser parceiro na obra, numa espécie de coautoria que vá além da mera participação (ler, em si mesmo, é ato participativo do crime de escrever).

Outro aspecto relevante é a importância que um texto possa ter no ambiente social, por suas motivações político-ideológicas. Não me atenho às motivações partidárias; refiro-me ao conjunto de ideias de cunhos social, político e ideológico. A produção do escritor solitário, egoísta, narcisista, adquire, ou há de adquirir, uma dimensão social. Ganha relevância, então, o que o direito consideraria “função social” da escrita literária. Di-lo assim do sacrossanto instituto da propriedade, coisa do liberalismo econômico que dirige toda criação jurídica. E, pensando bem, o que é um texto meu senão um bem integrante do conjunto das minhas propriedades? Está aí o direito autoral para não me deixar mentir.

As minhas crônicas têm, sim, um caráter inegavelmente político, que quase sempre chega às raias do partidarismo. Sou partidário desde a juventude, e lá se vão anos, décadas, porque desde cedo tive a compreensão de que toda política pública começa a ser desenvolvida, ou deveria, no laboratório dos partidos políticos. São as minhas “crônicas sanguíneas”, vermelhas, petistas, socialistas, progressistas, que Você pode ler logo ao se acomodar no sofá da “sala”. E se quiser contribuir com a manutenção da “Casa”, pode adquirir meu livro digital na Amazon, “Crônicas & Agudas”, em que reúno algumas delas, ao preço de R$10,00, ou ler gratuitamente no seu Kindle pelo programa Kindle Unlimited.

Chamo também de crônicas, porquanto datadas e com os pés na realidade cotidiana, as “tretas”, os meus diálogos, que de minha parte sempre tentei travar de modo civilizado, nem sempre correspondido, com meus estimados e equivocados contendores bolsonaristas, pelas redes sociais — WhatsApp, Facebook, pelo ex-Twitter, hoje apenas “X”, ou por e-mail. Travei-os durante a triste era trevosa (em verdade, creio que desde o malfadado, mal contado e mal digerido “mensalão”, quando os “bolsomínions” ainda eram chamados, de modo carinhoso, de “coxinhas”), em que se implantou não uma ideologia, porque de ideias não se trata, mas uma defecção, uma anomalia social e política que persiste em nos assombrar como um zumbi, fantasma de um corpo que resiste a ser enterrado. A tais almas equivocadas reservei, na “Casa”, um cômodo a que designei “oratório”, onde estão as “tretas” em formato de crônica. Quase todas estão também reunidas no livro digital (“e-book”, ou ebuque) “Diálogos civilizados com meus bolsomínions de estimação”, que Você pode adquirir na Amazon por significativos R$13,13 ou ler de graça pelo Kindle Unlimited.

Além delas, há as crônicas personalíssimas, digamos assim, em que discorro sobre acontecimentos de minha vida privada, não raro puxados pela memória, que por vezes remontam a priscas eras, ou dou vazão a meus pensamentos, por assim dizer — e me perdoem a pretensão; é só aparência, reconheço —, filosóficos. Essas crônicas, que não contêm viés político-partidário, Você as pode colher no "jardim", logo ao adentrar à “Casa”.

Sei também que meus poemas têm um caráter primitivo, são malmente elaborados, segundo as técnicas ditadas pelo “doutor bom gosto oficial” a que se referia Drummond no poema “Brasil/Tarsila”, que o poeta de Itabira, MG, compôs sobre a pintura de minha célebre conterrânea de Capivari, SP. Não me deixei levar pela arte de Tarsila, mas meus poemas são minha “arte naïf”, desenhada e pintada em forma de palavras sobre palavras, construção precária a que ouso chamar de versos. Enfim, Você poderá lê-los e deles se embriagar no “bar do bardo”, o bar da “Casa” em que se pode beber à vontade, sem moderação

Há os contos, arte em que sou igualmente aprendiz, um tanto mais dedicado do que como poeta — se é que tenho direito a me arrogar tal condição. Estão na “biblioteca” da “Casa”. A quem quiser ajudar a manter esta “Casa”, há a possibilidade de adquirir contos individualmente, disponíveis em formato digital na Amazon (Ceia de Natal, Anela e Cainã, o telecobrador, cada um a R$2,00; Estertores de um desertor e A inclusão de Terêncio, a R$1,99, ou lê-los no seu Kindle de graça pelo Kindle Unlimited).

E ando-me arriscando a conceber um romance. Um, apenas, não; logo três ou quatro, que venho escrevendo simultaneamente. Leitor caótico que sou, não poderia, por evidente, deixar de ser caótico também como escritor. Do mais avançado Você pode sentir o cheirinho vindo do forno ao entrar na “cozinha” da “Casa”. Como ainda está em preparação, o resultado final poderá trazer diferenças em relação ao que está disponível neste momento.

Enfim, todo esse acervo tem sentido para mim — ou não o teria concebido, ou teria rasgado ou deletado o que escrevi, ou não o teria trazido a público. Atende ao meu egoísmo e estampa meu narcisismo. Mas não faz nenhum sentido manter a “Casa” vazia, sem frequentadores e visitantes que lhe garantam o sopro da vida.

Venho me esforçando, há tempos, para atrair assinantes. Neste momento, já são exatos 911, muitos obtidos a fórceps, aos quais agradeço profundamente pela deferência. As deficiências de minha obra são tantas que, reconheço, têm impedido que meus poucos leitores, se de fato leitores tenho, deixem suas curtidas; mais ainda, seus comentários e, muito além destes, os compartilhamentos altamente desejáveis, para espalhamento da “Casa”. Agradeço, em especial, aos heroicos que se dedicaram a tão penosa empresa.

Prosseguindo nesse esforço é que me dirijo a Você, para reiterar o meu pedido para que acesse regularmente esta minha “Casa”. É inteiramente grátis e assim será por longo tempo, presumo; e gratuito será também o envio, por e-mail, dos meus boletins informativos (as tais “niusléteres”, como esta que Você está a ler neste momento) contando-lhe as novidades deste meu espaço literário.

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