09/02/2026

Bem-vindo(a) à minha "Casa Literária"

Prezado amigo, prezada amiga.

Criei minha “Casa Literária” como um espaço destinado a abrigar, de forma ordenada, minha produção no âmbito da literatura. Migrei para ela tudo o que estava esparso pelo Facebook, nos meus vários blogues e na plataforma Circle, primeira tentativa de organizar uma “Casa”. Optei por fixá-la no Substack.

Nela, reúno meus artigos, minhas crônicas, meus poemas, os meus contos mais recentes (os antigos estão no livro “O Onomaturgo e Outras Histórias”, que lancei pela editora "Rua do Sabão” em 19 de julho de 2025 — dia em que, como venho dizendo desde então, “nasci” como autor — veja abaixo onde e como adquiri-lo) e impressões variadas e dispersas, como mais um especialista-em-tudo que sou e, como tal, ansioso por dar palpite sobre qualquer coisa.

A criação literária é, a princípio, um ato solitário, egoístico, um tanto narcísico. Eu começo a escrever, primeiramente, para dar vazão a uma pulsão íntima, um desejo somente meu, incontrolável. Eis a face e a fase egoísta da escrita.

Em seguida, quase sempre sem ao menos esperar pelo sétimo dia, cuidado que teve Deus ao criar o mundo, dou a obra por boa e acabada e, a partir desse meu juízo, sinto que está à altura de ser lida pelos outros — ou seja, por todos os demais que, por óbvio, não sejam eu mesmo. Aqui, o aspecto narcísico. Acredito-me tão bom no que faço que me acho digno de ser lido por outros.

O que me contém, por vezes, é a sensação de que o que tenho a dizer, e que o digo por intermédio dos meus textos, será apenas mais uma voz na multidão. Que diferença fará, para a Humanidade, para o público leitor, para minha bolha de amigos, o meu rasteiro pensamento? Ainda assim, o Narciso que vive dentro de mim fala mais alto e se impõe.

Postas tais considerações, chamo a sua atenção para outros aspectos do ato de escrever e da produção literária.

Primeiro, por mais egoística e narcísica que seja a criação, o autor sempre reserva, ou pode reservar, quiçá deva, um espaço indelimitável para a imaginação do leitor. Assim é, ou deve ser, em todos os textos, de qualquer gênero, em especial nos contos, pelos quais sou apaixonado. O leitor há de ser parceiro na obra, numa espécie de coautoria que vá além da mera participação (ler, em si mesmo, é ato participativo do crime de escrever).

Outro aspecto relevante é a importância que um texto possa ter no ambiente social, por suas motivações político-ideológicas. Não me atenho às motivações partidárias; refiro-me ao conjunto de ideias de cunhos social, político e ideológico. A produção do escritor solitário, egoísta, narcisista, adquire, ou há de adquirir, uma dimensão social. Ganha relevância, então, o que o direito consideraria “função social” da escrita literária. Di-lo assim do sacrossanto instituto da propriedade, coisa do liberalismo econômico que dirige toda criação jurídica. E, pensando bem, o que é um texto meu senão um bem integrante do conjunto das minhas propriedades? Está aí o direito autoral para não me deixar mentir.

As minhas crônicas têm, sim, um caráter inegavelmente político, que quase sempre chega às raias do partidarismo. Sou partidário desde a juventude, e lá se vão anos, décadas, porque desde cedo tive a compreensão de que toda política pública começa a ser desenvolvida, ou deveria, no laboratório dos partidos políticos. São as minhas “crônicas sanguíneas”, vermelhas, petistas, socialistas, progressistas, que Você pode ler logo ao se acomodar no sofá da “sala”. E se quiser contribuir com a manutenção da “Casa”, pode adquirir meu livro digital na Amazon, “Crônicas & Agudas”, em que reúno algumas delas, ao preço de R$10,00, ou ler gratuitamente no seu Kindle pelo programa Kindle Unlimited.

Chamo também de crônicas, porquanto datadas e com os pés na realidade cotidiana, as “tretas”, os meus diálogos, que de minha parte sempre tentei travar de modo civilizado, nem sempre correspondido, com meus estimados e equivocados contendores bolsonaristas, pelas redes sociais — WhatsApp, Facebook, pelo ex-Twitter, hoje apenas “X”, ou por e-mail. Travei-os durante a triste era trevosa (em verdade, creio que desde o malfadado, mal contado e mal digerido “mensalão”, quando os “bolsomínions” ainda eram chamados, de modo carinhoso, de “coxinhas”), em que se implantou não uma ideologia, porque de ideias não se trata, mas uma defecção, uma anomalia social e política que persiste em nos assombrar como um zumbi, fantasma de um corpo que resiste a ser enterrado. A tais almas equivocadas reservei, na “Casa”, um cômodo a que designei “oratório”, onde estão as “tretas” em formato de crônica. Quase todas estão também reunidas no livro digital (“e-book”, ou ebuque) “Diálogos civilizados com meus bolsomínions de estimação”, que Você pode adquirir na Amazon por significativos R$13,13 ou ler de graça pelo Kindle Unlimited.

Além delas, há as crônicas personalíssimas, digamos assim, em que discorro sobre acontecimentos de minha vida privada, não raro puxados pela memória, que por vezes remontam a priscas eras, ou dou vazão a meus pensamentos, por assim dizer — e me perdoem a pretensão; é só aparência, reconheço —, filosóficos. Essas crônicas, que não contêm viés político-partidário, Você as pode colher no "jardim", logo ao adentrar à “Casa”.

Sei também que meus poemas têm um caráter primitivo, são malmente elaborados, segundo as técnicas ditadas pelo “doutor bom gosto oficial” a que se referia Drummond no poema “Brasil/Tarsila”, que o poeta de Itabira, MG, compôs sobre a pintura de minha célebre conterrânea de Capivari, SP. Não me deixei levar pela arte de Tarsila, mas meus poemas são minha “arte naïf”, desenhada e pintada em forma de palavras sobre palavras, construção precária a que ouso chamar de versos. Enfim, Você poderá lê-los e deles se embriagar no “bar do bardo”, o bar da “Casa” em que se pode beber à vontade, sem moderação

Há os contos, arte em que sou igualmente aprendiz, um tanto mais dedicado do que como poeta — se é que tenho direito a me arrogar tal condição. Estão na “biblioteca” da “Casa”. A quem quiser ajudar a manter esta “Casa”, há a possibilidade de adquirir contos individualmente, disponíveis em formato digital na Amazon (Ceia de Natal, Anela e Cainã, o telecobrador, cada um a R$2,00; Estertores de um desertor e A inclusão de Terêncio, a R$1,99, ou lê-los no seu Kindle de graça pelo Kindle Unlimited).

E ando-me arriscando a conceber um romance. Um, apenas, não; logo três ou quatro, que venho escrevendo simultaneamente. Leitor caótico que sou, não poderia, por evidente, deixar de ser caótico também como escritor. Do mais avançado Você pode sentir o cheirinho vindo do forno ao entrar na “cozinha” da “Casa”. Como ainda está em preparação, o resultado final poderá trazer diferenças em relação ao que está disponível neste momento.

Enfim, todo esse acervo tem sentido para mim — ou não o teria concebido, ou teria rasgado ou deletado o que escrevi, ou não o teria trazido a público. Atende ao meu egoísmo e estampa meu narcisismo. Mas não faz nenhum sentido manter a “Casa” vazia, sem frequentadores e visitantes que lhe garantam o sopro da vida.

Venho me esforçando, há tempos, para atrair assinantes. Neste momento, já são exatos 911, muitos obtidos a fórceps, aos quais agradeço profundamente pela deferência. As deficiências de minha obra são tantas que, reconheço, têm impedido que meus poucos leitores, se de fato leitores tenho, deixem suas curtidas; mais ainda, seus comentários e, muito além destes, os compartilhamentos altamente desejáveis, para espalhamento da “Casa”. Agradeço, em especial, aos heroicos que se dedicaram a tão penosa empresa.

Prosseguindo nesse esforço é que me dirijo a Você, para reiterar o meu pedido para que acesse regularmente esta minha “Casa”. É inteiramente grátis e assim será por longo tempo, presumo; e gratuito será também o envio, por e-mail, dos meus boletins informativos (as tais “niusléteres”, como esta que Você está a ler neste momento) contando-lhe as novidades deste meu espaço literário.

Você está recebendo esta mensagem porque já é assinante. Peço-lhe, por conta da amizade entre nós estabelecida, que promova este espaço literário entre seus amigos e, de olho no funcionamento dos algoritmos, deixe uma curtida nos textos que mais lhe agradarem, um comentário, ainda que seja para espezinhá-los, e, sobretudo, que os compartilhe em suas redes sociais. São gestos singelos de generosidade que farão um bem enorme ao espalhamento desta minha publicação, pelos quais desde já lhe agradeço.

14/01/2026

Meus mais sinceros pêsames

Meus mais sinceros pêsames por Luís Antônio Albiero

Crônica para a quarta-feira de cinzas

Leia no Substack

13/01/2026

A viúva de Corinto

CONTO
Fermín Toro, Venezuela, 1837

Tradução "Google" adaptada por Luís Antônio Albiero
jan 11, 2026

Este conto, apontado como o primeiro escrito por um venezuelano, me foi apresentado por 52 Cuentos del País que Llevo e copiado, com adaptações que fiz da tradução do Google, de El Diente Roto.

25/12/2025

Os pés de chinelo

Conheci meu mundo pisando em chinelos. Eram o meu chão, meu porto seguro ambulante. Sobre eles, explorava a casa, o quintal, as ruas da vizinhança, até boa parte da cidade. Com eles, eu girava a enorme bola planetária enquanto me esforçava para subir a ladeira íngreme da rua Padre Haroldo, perto de casa.

Para mais longe, nem sempre eram suficientes. A ida ao centro da pequena Capivari já me exigia um calçado mais reforçado. Um par de calçados, deixe-se claro. Vivemos tempos em que é necessário lembrar que temos dois pés e que eu costumo usar os dois, desde sempre, o esquerdo e, pasmem!, também o direito.

Para ir ao centro ou mais longe, as havaianas eram substituídas pela conga, um tênis de tecido e solado de borracha branco. Minha conga era toda branca, mas logo surgiram variadas cores. A mais comum era a azul, a mesma da calça rancheira, precursora das atuais jeans e seu inconfundível indigo blue

Algo na minha memória me traz a imagem de um calçado em que a sola era de um material semelhante à corda, decerto sisal, mas a certeza não me é boa companheira. Talvez fosse alguma imitação, por ordinário mais barata que as originais. Talvez, ao contrário, os chinelos de meu uso já fossem uma evolução de calçados primitivos.

Chamávamo-las de pargatas, corruptela do nome do fabricante, Alpargatas, o mesmo das havaianas de hoje, palavra que é  uma variação do gênero alpercata, de origem árabe que, segundo o dicionário Priberam, significa calçado em que a sola, de corda ou de borracha, se ajusta ao pé por meio de tiras de couro ou de pano. Bingo! Parece que eu estava certo. 

Os chinelos havaianas e a conga eram produtos baratos, coisa de pobre. Vem dos primeiros a expressão pé de chinelo, que desde então passou a designar a pessoa desprovida de recursos, o pobretão, como o menino de 1970, este jovem senhor que ora vos escreve, e assim foi até se transformar no moço de 1980.

Bom, calço chinelos até hoje, e ainda da marca havaianas, que passaram a ter qualidade de exportação e a serem chamados de sandálias, razão, suponho, pela qual os preços explodiram. Já faz tempo que um pé de chinelo deixou de ser o pé-rapado dos anos de chumbo.

Os chinelos tinham utilidades que iam além de proteger os pés das pedras do caminho. Têm até hoje. As baratas que o digam. Também as crianças, vítimas de mães zelosas nem sempre bem humoradas. 

Uma superstição da infância era não deixar as havaianas com a sola voltada para o alto. Não me esqueço de Susso, um vizinho pouco mais novo, me advertir aos gritos, sinceramente preocupado: "não deixe o chinelo assim, senão vai encontrar sua mãe morta atrás da porta!" Ainda hoje, mesmo que minha saudosa mãezinha já não mais se encontre entre nós viventes, zelo para não deixar os chinelos de ponta-cabeça. Temo que no dia de seu último suspiro eu os tenha esquecido na posição fatídica e essa sensação de culpa me consome.

A propaganda, fiel à razão de sua existência, já então funcionava para induzir o consumidor a se desviar da pirataria. O humorista Chico Anysio, ícone da TV naqueles antanhos, vivenciava em diversas peças publicitárias o brasileiro comum, o trabalhador, o torcedor, o malandro, o desiludido com a política. O apelo era sempre para jogar fora as imitações e comprar as legítimas havaianas. Invariavelmente, o personagem por ele encarnado terminava dizendo que as legítimas "não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro"



Uma das peças terminava com a mensagem de que o produto agora era também fabricado no Nordeste — fico pensando nos sentimentos não bons que essa revelação hoje causaria numa certa gente preconceituosa que habita partes do Sul e do Sudeste do Brasil.

As havaianas acabam de lançar a mais genial das peças publicitárias de todos os tempos. Retoma, na verdade, a linha adotada em 2014, em que o Chico Anysio da vez era o boleiro Romário, que vivia a si mesmo adquirindo um par de sandálias e pedindo à vendedora que embrulhasse cada pé em uma embalagem própria. Terminava com ele em meio a torcedores, com as pernas esticadas, a esquerda sobreposta à direita, e um dos figurantes perguntando-lhe "cadê o pé esquerdo das suas havaianas?" "Está com quem merece", terminava dizendo o craque brasileiro, campeão mundial. A cena fechava com uma referência à Argentina e seu craque Diego Maradona.

Já havia sido uma grande sacada essa peça de 2014. A referência à política era indisfarçável. O Brasil vinha das jornadas de junho, do ano anterior, que determinaram uma queda acentuada, de um dia para o outro, nos índices de popularidade da presidenta Dilma Rousseff, do PT,  e remetia às eleições que viriam a acontecer naquele mesmo ano, em que a petista penaria para ser reeleita por uma diferença percentualmente ínfima e preocupante. No mesmo pleito, o Rio de Janeiro elegeria senador, para seu primeiro mandato, ninguém menos do que o próprio Romário. Dilma é de esquerda, as jornadas de junho foram apropriadas pela extrema-direita e Romário até hoje está no PL, de BolsoNero e de direita.

À época, ninguém bufou, ninguém falou em boicote ao produto, nem mesmo houve qualquer questionamento à evidente promoção do então pré-candidato Romário, de fato eleito no mesmo ano. Patrocinada por uma empresa privada em rede nacional como se se tratasse de uma publicidade ordinária, bem poderia ter sido caracterizada como propaganda política antecipada e abuso do poder econômico. No mínimo, caixa dois.

Os tempos são outros, a economia hoje bomba, vivemos ainda o alívio de nos termos livrado da extrema-direita em 2022 e seu necrogoverno de pendores nazifascistas. Nesse contexto, eis que surge a melhor das sacadas. No finzinho de 2025, o publicitário trocou Anysio, já falecido, e Romário, senador reeleito, por ninguém menos do que a atriz Fernanda Torres, identificada com causas da esquerda, que há pouco foi indicada para o Oscar de melhor atriz. A obra, de que participou como protagonista, conquistou a estatueta de melhor filme estrangeiro, o primeiro Oscar do Brasil. 

Em tom de evidente provocação, suavizada logo na sequência das falas, Fernanda começa dizendo: "desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito"

De pronto e na sequência, a suavização, o afastamento da provocação politica — como se não bastasse  o prévio pedido de desculpas: "não é nada contra a sorte, mas vamos combinar… sorte não depende de você. Depende de sorte!"

A partir daí a propaganda, como a de 2014, que terminava com uma generosa referência à esquerda (Maradona sempre foi, como Fernandinha, identificado com o lado esquerdo do espectro político, amigo de Lula e de Fidel Castro), parte para uma mensagem de inclusão e acolhimento: "o que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés!"

Nota bene: com os dois pés!

O que parecia um repúdio à direita, torna-se logo nas primeiras frases um apelo à união, à pacificação do país, tão desejada por todos (ou não?). São tempos de Natal, a mensagem diz do ano que está para começar, e Natal é reconciliação, e um novo ano sugere fraternidade. O dia 1° de janeiro, não por acaso, é o dia da confraternização universal ("frater", do latim, significa "irmão" e "confraternização" tem a mesma raiz de "fraternidade").

E por aí segue a atriz citando expressões do cotidiano brasileiro que apontam para atitudes e escolhas pessoais: "os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser".

Observe a ênfase em os dois pés.

E termina: "vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça… aos pés!"

Genial ou não?

Só que nem todo mundo gostou. 

Não tardou e os pés-rapados da cognição logo se insurgiram, dizendo que era uma propaganda comunista, que os chinelos havaianas eram um lixo, daí para o esgoto… 

Eu tomei conhecimento da peça não por ela mesma, vendo-a na TV, mas já pela repercussão nas hostes da extrema-direita. O primeiro vídeo que vi mostrava um sujeito jogando no lixo um par de havaianas. Depois dele, vi vários outros vídeos, estes de gente da esquerda reproduzindo essa estultice extremista, criticando, por óbvio, a atitude da subcelebridade protagonista. Vários! Até agora não vi o vídeo original, a propaganda propriamente dita, ela em si mesma e somente ela.

E depois desse primeiro indigente da inteligência vieram outros, sobretudo os políticos da quinta série do Congresso Nacional, tipos exóticos como Bia Kicis, Pazuelo, Nicole Guerreira, até o sapientíssimo Eduardo Bolsonaro, o sujeito que do nada, passando-se por autoexilado, provocou a própria exclusão do país e do parlamento ao partir para os Estados Unidos para cumprir o papel que o pai lhe havia reservado quando presidente, mas que não chegou a concretizar, graças à coragem que o caracteriza, de embaixador do Brasil junto ao maior país da América do Norte. 

O até então líder da bancada trumpista na Câmara Federal brasileira, hoje membro da bancada dos foragidos e cassados, realmente se empenhou com toda sua inteligência e aptidão para tal encargo, tanto que conseguiu obter do governo estadunidense as mais gravosas taxações a produtos exportados pelo Brasil, pôs em polvorosa os nossos produtores e o mercado dos Estados Unidos e, de quebra, conseguiu a aplicação da lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes e outros ministros do STF. 

Tanto poder concentrado nas mãos de um só sujeito, convenhamos, tem alto potencial explosivo. Sua competência foi tanta, e tão sólida se demonstrou sua influência junto a autoridades do governo dos EUA que hoje, mal passados seis meses dos primeiros anúncios das sanções, Lula dança valsa com Donald Trump com invejável desenvoltura, enquanto o próprio Bananaro corre risco de ser deportado para seu país de origem ou se tornar um apátrida.

Uma sequência histórica de trapalhadas só poderia mesmo culminar com mais esse comportamento ridículo dos extremistas de direita em relação a uma singela propaganda de TV que, sim, começa com provocação politica, mas parte logo para uma mensagem de inclusão e acolhimento. E disso, acolhimento e inclusão, a extrema-direita faz questão de não querer nem saber.

Minha amada mãezinha diria que faltaram chineladas nas nádegas desses meninos mimados transformados em adultos mal resolvidos. Sim, acompanho o voto da nobre relatora, de saudosa memória, e digo mais: essa gente estúpida não merece mesmo usar os chinelos havaianas. Não, ao menos, enquanto não calçarem as sandálias da humildade, enquanto não se reconhecerem como os pés-rapados da politica nacional que de fato são.

Que se lhes deem umas boas e merecidas havaianadas na bunda! Meramente corretivas, faz favor, porque na esquerda não curtimos violência.

_____________

Compre meu livro!!!

Meu primeiro livro impresso, “O Onomaturgo e Outras Histórias”, está à venda nos seguintes endereços:

* no portal da editora Rua do Sabão

* nas livrarias: Livraria da Travessa, Livraria da Vila, Martins Fontes da Paulista

* nos portais Amazon, Estante Virtual, Quatro Cinco Um, Magazine Luíza, Rama Livros, Mercado Livre

Ah, sim! E também, enquanto houver em estoque, diretamente comigo (envie mensagem para meu endereço laalbiero@yahoo.com.br).

Falo sobre o livro nesta crônica: Entrevista sobre o meu livro”.


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20/12/2025

As náuseas e uma flor


Crônica
Luís Antônio Albiero
dez 20, 2025

Adentrou a cela preso a umas poucas roupas. Chegou de uniforme laranja por um corredor acinzentado.

Na solidão da cela que lhe foi destinada, espreitam-no o ar condicionado, o frigobar, a cama confortável, a mesinha de cabeceira. Nada, porém, nenhuma dessas mercadorias, nem a excepcional privacidade, impede que a melancolia tome conta de seu espírito intranquilo.

Os enjoos de sempre se intensificam e ele sente falta de armas com as quais pudesse extravasar sua revolta. Lança os olhos sujos no relógio de pulso e se dá conta de quão longe está o tempo da justiça, quase trinta anos pela frente.

A porta aberta do pequeno banheiro conjugado, ao lado da mesinha de comer, o faz lembrar que o tempo ainda é de fezes, e da dificuldade que tem para as expelir.

As alucinações que a espera lhe causou anteciparam a prisão definitiva. O tempo pobre funde-se à ausência de poesia, falta da qual ele sequer se ressente.

Em vão, ele tenta se explicar, mas as paredes são surdas. As palavras escondem cifras e códigos. Pelo quadrado da janela, o sol consola-o das doenças, mas não o renova. Tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Súbito, o desejo de vomitar esse tédio sobre a cela, sobre a cidade, sobre todo o país. Setenta anos e todos os problemas mal resolvidos, agora projetados por incertos mais de vinte e sete por vir. Nenhuma carta escrita, nenhuma palavra trocada e, no entanto, seu silêncio pauta os jornais que soletram o mundo, embora saibam que ele o perde.

Crimes da terra, como perdoá-los? Tomou parte em vários, muitos nem se deu ao trabalho de esconder. Alguns, ao contrário, achou belos, fez questão de os tornar públicos. Crimes suaves, que o ajudavam a viver, ração diária de erro distribuída em casa, o pão com leite condensado do mal de cada dia.

Deseja pôr fogo em tudo, como Nero, inclusive em si mesmo. Ao rapaz de 1986 chamavam subversivo, explosivo, porém seu ódio é o melhor de si. Ainda é o que o salva, que lhe traz mínimas e incertas esperanças.

Uma flor que nascesse! Quanta falta faz uma flor, ainda que desbotada. Uma flor que iludisse o peso da vigilância, rompesse a concretude da cela, compensasse a paralisia dos negócios.



O preso se convence de que se uma flor brotasse ali, ainda que sua cor não se percebesse, suas pétalas não se abrissem, cujo nome não estivesse nos livros, mas que fosse realmente uma flor, teria ao menos companhia para conversar.

Ele se senta no chão da cela na capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passa a mão nessa forma insegura, imaginada. Do lado de fora, pela estreita janela, vê a ausência de montanhas ao longe, a planície a se espraiar, apenas as nuvens maciças que se avolumam, pequenos pontos brancos que se movem lentos e ganham contornos de galinhas em pânico.

O preso clama em silêncio, ao menos uma flor com quem possa conversar! Ainda que fosse feia, seria uma flor. Furaria o concreto, o tédio, o nojo e o ódio.

(Crônica inspirada nos poemas “A flor e a náusea”, do livro “A rosa do povo”, de Carlos Drummond de Andrade, e “Não tem nem uma flor para ele conversar”, de Flávio Bolsonaro)

17/12/2025

Raiou um santo dia

Crônica
Luís Antônio Albiero
dez 17, 2025

Os dias raiam em sequência infinita, desde sempre e para todo o sempre.

Num desses, eis que veio à luz mais um ser humano. Nasceu sem nome e, como esperado, a mania histórica das pessoas que se pretendem civilizadas pôs em polvorosa os pais, que até o momento de nascer não haviam dispensado um único segundo para pensar e decidir como o chamariam.

Objetará, com razão, o astuto leitor que se trata de preocupação precedente à civilização humana. Não tenho como aderir à teoria, mas admitamo-la, para fluxo ordinário da narrativa.

O pai olhou para o menino, viu nele algo inexplicável e sugeriu, não sem um certo entusiasmo:

— Óchito!

— Muito chique — objetou a mãe, sem pestanejar. — Nóis é pobre — lembrou, a título de dar uma explicação.

O pai pensou mais um segundo, endereçou novo olhar ao rebento e fez uma segunda proposta:

— Raiam.

A mãe fez uma cara assim assim, torceu o nariz, mordiscou os próprios lábios, coçou o interior da orelha direita.

— Gostei — concluiu.

— Vi num filme americano — revelou o pai, sorrindo de satisfação.

— Não importa. É chique também, mas lembra raio de sol, que é de todo mundo. Meu menino é iluminado.

Ilustração gerada pelo Substack
Ilustração gerada pelo Substack

— Raiam Dias, então — pensou alto o pai.

— Não esqueceu nada não?

— Esqueci do quê?

— De mim. Que o menino tem mãe…

— Uai, claro que não esqueci. Por que ‘cê ‘tá me dizendo isso?

— Santos, hômi! Meu sobrenome, ara essa. Quero que o menino tenha meu sobrenome também. Não é justo?

— Tá bom — consentiu o marido. — Então vai ser Raiam Santos Dias.

E desde então os dias, uns santos, outros nem tanto, continuaram raiando em sua sequência sem fim.

14/12/2025

Blindado, o dosimetrista

Conto
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BLINDADO, O DOSIMETRISTA
A barulheira provocada pelo abrir e bater de portas da viatura que acabara de estacionar diante do fórum assustou um casal de maritacas que dormitava debaixo do beiral do prédio. Elas saíram em revoada, grasnando forte, como se reclamassem. Fazia um dia bonito, de muito sol.
Blindado, um jovem entroncado de pouco mais de trinta anos, entrou na sala de audiências escoltado por um policial militar e uma agente carcerária. Puseram-no sentado no banco destinado aos réus, defronte a escrivaninha ocupada pela bela escrevente, loura de olhos verdes, e seu computador; retiraram-lhe as algemas e se afastaram, mantendo-se ambos em pé, próximos da porta de entrada.
O advogado já estava em seu posto, sentado à mesa baixa, e palestrava a respeito de banalidades com o juiz, cuja mesa, disposta em perpendicular à outra, ficava sobre um tablado, de modo que o colocava em posição de superioridade em relação aos demais. Sobre ele, na parede, do alto de sua cruz um Cristo silencioso a tudo vigiava.
O promotor, homem esguio e muito lhano, de meia idade e bigodinho à mexicana, foi o último a chegar, quando a escrevente já havia registrado os dados pessoais do acusado.
A primeira pergunta do juiz deveria ter sido se Blindado sabia do que estava sendo acusado e se já havia sido preso ou processado anteriormente, mas o doutor Alessandro Karanão Rodrigues, de voz anasalada que lhe conferia certa infantilidade, pele muito alva e traços duros, não resistiu e quis logo saber a razão do curioso apelido.
O réu respondeu que havia recebido o codinome na ocasião em que fora preso pela primeira vez, anos atrás, quando teve – adiantou-se a dizer – participação mínima num assalto a banco.
— Participação mínima… — repetiu o juiz, em tom de deboche.
O acusado seguiu explicando que apenas ficara do lado de fora do banco, vigiando eventual chegada da polícia. Da explicação passou a dizer que, no cárcere, ganhou respeito quando passou a orientar os demais parceiros de cela sobre as penas de cada crime: roubo, furto, homicídio; qualificadoras, agravantes, atenuantes, progressão de pena.
— O senhor sabe qual a menor pena prevista no código penal? — desandou Blindado a perguntar ao presidente da audiência, que preferiu ficar em silêncio e apenas ouvir o que o réu tinha a lhe dizer.
— O senhor deve saber que é o crime de rixa, detenção de quinze dias a dois meses. E os de maior pena são os de morte, o homicídio qualificado, o feminicídio, tão em moda atualmente, que preveem reclusão de vinte a trinta anos. Digo sempre que matar nunca é bom, porque leva a penas mais pesadas. Quer roubar? Roube, mas não mate. Estupra, mas não mata — lembra dessa frase?
— Quem não se lembra?— comentou o juiz.
– Eu me especializei nas penas do Código Penal. Costumo fazer combinações para cometer os crimes que custem o menor tempo de cadeia para o meu cliente, doutor.
O juiz juntou as mãos, apoiou os cotovelos sobre a mesa e ficou a fitar Blindado, a ponto de o constranger. E, de fato, ele se remexeu no banco dos réus.
– Tá todo mundo se blindando, doutor. Eu me viro como posso.
– Pois é. E o senhor estava em liberdade condicional e não se preocupou, cometeu logo outro crime. Acho que o senhor falhou nessa tarefa de contabilizar as penas, ponderar as circunstâncias.
– Mas eu não sabia que as armas estavam no chão do banco de trás do carro, doutor! — justificou-se Blindado, já entrando no mérito da prisão em flagrante ocorrida no dia anterior.
– Ah, não sabia… Unrum. Decerto as armas nem são suas…
– Não são mesmo, excelência. São do meu pai. Ele usa para espantar raposas e lagartos.
– Espantar lagartos… raposas… Sei.
– Verdade, doutor. As raposas devoram o galinheiro. Os lagartos acabam com a plantação de meu pai. Eu vim passear, visitar meus pais, que moram na roça. Fui criado na roça. Viemos eu e minha namorada, que trabalha no Ministério Público. Resolvemos dar uma volta no centro da cidade, com o carrinho do velho. Fui parado pelos policiais e… estou aqui.
–Ah, ‘tá. Sua namorada deve ser promotora de justiça, imagino.
O promotor se ajeitou na cadeira, esticando o corpo, redobrando a atenção.
– Não, doutor. É auxiliar, assistente; acho que é analista.
– E ela com certeza o auxilia na hora de combinar as penas do próximo crime.
– Ah, não! Eu não misturo trabalho com coisas do coração, excelência!
O magistrado deixou escapar uma risada. Todos o acompanharam, com discrição.
– O problema, doutor, é acompanhar a evolução dos tempos. Toda hora tem deputado que, para aparecer, para lacrar, gosta de alterar a lei para elevar as penas. Basta acontecer um caso famoso, toma projeto de lei para agravar a pena, para tornar o crime hediondo, para diminuir os benefícios. Isso atrapalha meu negócio. Claro, também acaba valorizando meus honorários.
– Pelo menos reduz a criminalidade – interveio o promotor.
— Doutor! Doutor… O senhor acha mesmo que bandido, antes de cometer um crime, corre pegar o código penal, consultar cada crime, examinar quais as penas menores, quais os crimes que mais valem a pena?
Seguiu-se breve silêncio. Blindado continuou:
— Até onde sei, sou o único que faz isso, e presto consultoria para meia dúzia de amigos, apenas isso.
– Mas se a moda pega… Vou acionar hoje mesmo a cúpula do Ministério Público para fazer lóbi junto ao Congresso Nacional para criar um novo tipo penal, uma nova definição de crime. Melhor prevenir do que ter de remediar — sentenciou o fiscal das leis.
– Qual crime?!? – perguntaram em uníssono o réu e o magistrado.
– Crime de dosimetria. Onde já se viu ficar calculando previamente a dosagem da pena para decidir qual crime vai cometer!? Isso é um crime! Quero dizer, deve passar a ser crime.
O especialista em penas sentiu-se à vontade para emitir sua opinião:
— Doutor, precisa mesmo criar. Os deputados agora resolveram fazer o contrário do que sempre fizeram. Ao invés de pregarem a necessidade de aumentar penas, criar novos crimes, tornar tudo crime hediondo, agora vão à cadeia perguntar ao criminoso o que ele acha, se para ele estará bom reduzir assim assim as penas dos crimes que ele cometeu e pelos quais já foi condenado! Eu, que sou do ramo, acho isso um absurdo!
– Nisso, concordamos todos. O senhor, com certeza, já pensou em se candidatar a algum cargo público — conjecturou o magistrado, dirigindo-se ao réu.
— Sim, doutor – respondeu Blindado. — Deputado federal. Senador, talvez. No Congresso é que está a nata da bandi... da blindagem. Assim que cumprir minha pena, quem sabe, né?
Encerrado o interrogatório, o promotor se retirou. Os agentes que aguardavam na porta aproximaram-se do acusado para repor-lhe as algemas e levá-lo de volta ao cárcere. O réu, ao assinar o termo de registro da audiência, notou que o sobrenome do juiz era Rodrigues.
— Doutor, tem muitos Rodrigues na cadeia.
O juiz, que assinava a ata da audiência, elevou o olhar, cravando-o nos olhos do abusado, e comentou, irritado:
– É, mas nenhum é parente meu!
Blindado engoliu seco e não mais abriu a boca, nem para se desculpar. Ao se aproximar da porta, o juiz o chamou. O preso girou o corpo e, confrangido, olhou para o magistrado, que lhe recomendou:
— Não use mais as armas para espantar lagartos, está bem?
O criminoso expressou com o olhar que não entendeu.
— Da próxima vez, use-as para espantar maus pensamentos.
O juiz Karanäo, então, juntou as mãos, dobrou os cotovelos e os manteve suspensos no ar. Esticou o enorme dedo indicador da mão direita e abriu o polegar, como se formasse uma arma. Encostou o dedo ereto, pressionando-o com firmeza acima do pomo, na direção da cabeça, e disparou um som com a boca:
– Pou!
As maritacas, que haviam retornado ao beiral durante a audiência, saíram em revoada novamente.




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