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09/03/2026

Fonte quentíssima

CONTO 

Desde cedo a mente de Asdrúbal fervilhava com o noticiário político-policial nacional. O golpe nos aposentados, o golpe bilionário do banco liquidado, o envolvimento de ministros e juízes, tudo tangenciava o cotidiano do seu trabalho.

Sujeito baixinho, do tipo ainda esguio em visível processo de desenvolvimento abdominal — o que se explicava por sua condição de recém-casado —, cabelos encaracolados, pele amanteigada, Asdrúbal era assessor de confiança do chefe da divisão responsável por ambas as investigações. 

Chegou muito tarde à repartição, passava das dez e meia. Entrou esforçando-se para não chamar a atenção dos colegas. Só cumprimentou Afrânio, cuja mesa ficava bem defronte à sua, assim que se sentou.

— Bom dia, Asdrúbal! — disse-lhe o vizinho com um excesso contido de alegria que beirava ao sarcasmo, em resposta às sobrancelhas que Asdrúbal havia levantado a título de o cumprimentar. 

— Parece que o colega não dormiu bem esta noite. Até perdeu hora — disparou o policial gordo, de meia idade, olhos grandes amendoados, contornados por sobrecenhos grossos, que expressava sabedoria no olhar e no comedimento dos gestos.

— É, rapá, não é mole, não. Saí tarde daqui ontem. O chefe pediu para esperar por ele…

— Eu sei. Também fiquei. Mas não estou vigiando você, nem cobrando nada, não. É que você está com ar visivelmente cansado, olheiras profundas, e você não é de perder hora.

— Preocupações, meu amigo. Preocupações. Mulher grávida,  um filho a caminho, o estresse do trabalho.
Asdrúbal era o tipo de policial que adoraria resolver todos os problemas que tumultuam a vida em sociedade. Era bem intencionado, mas não perdia a chance de limar a lei na hora de alcançar seus objetivos. 

Logo que ingressou no serviço público, novinho como pinto saído do ovo, magérrimo feito um cabide, exultava-se com as prisões preventivas que um juiz do interior determinava a figurões da política e do empresariado nacionais para, em seguida, arrancar-lhes uma confissão,  ainda que falsa, ou uma delação,  ainda que arranjada pelos próprios policiais ou membros do ministério público. 

— Para situações excepcionais, soluções excepcionais — costumava dizer o então garoto, recém-formado em Direito por uma faculdade particular da capital da República, que só pôde cursar graças a recursos de um programa governamental. Afrânio torcia o nariz para conceitos metajurídicos.

Na volta do almoço, Afrânio convidou o outro para que fossem ao que chamavam de “cantinho das soluções universais”, reduzido à sigla “CSU”, onde, entre um gole e outro de café, os colegas solucionavam todos os problemas existentes entre o céu e a terra — por vezes, até os celestiais. Asdrúbal topou e caminhou os poucos passos entre as mesas e o cantinho comentando:

— Viu o resultado da quebra de sigilo bancário do “Filhotinho”? A casa caiu para ele!

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