11/10/2025

No cantinho do café virtual

— Hello!

Quando Estuquinha percebeu que era Donald Trump chamando para a videoconferência e que o presidente dos Estados Unidos já aparecia na tela, viu-se na obrigação de intervir:

— Hello, míster Tchrômpi! Um minutinho só, plis. Míster Lula da Silva foi ao banheiro… ééé… foi escovar os dentes, já já virá atendê-lo.

Donald respondeu estendendo os “r” retroflexos mais do que um caipira do interior paulista:

— Não tem problema, míster assessor. Aiueite. Eu espero. Tenho todo o tempo do mundo. Eu tenho o mundo todo, por que não teria também o tempo do mundo? Belos cabelos, hein!

Estuquinha sorriu, surpreso e encabulado.

— Ó, tanquiú, míster Tchrômpi! Bondade sua — respondeu o fotógrafo oficial do presidente brasileiro balouçando sua elegante cabeleira.

— Os seus também são… ééé… Ah! Míster Lula is câmin.

Lula chegou defronte à câmera ainda apertando os cintos e ajeitando a calça. Subiu o zíper da braguilha e perguntou:

— ‘Tá no ar?

— ‘Tá, presidente — respondeu Estuquinha.

A voz rouca inconfundível atravessou as Américas pelas infovias com a suavidade de uma flecha:

— Bom dia, companheiro Trâmpi! Desculpe o mau jeito, hehe.

— Gúdi mórnin, míster prísden! Rauariú? Bonito esse seu cinto.

— Obrigado, companheiro. É de couro legítimo, fabricado em Franca, uma cidade muito agradável aqui no Brasil. Fica ao lado de Ribeirão Preto. Conhece Ribeirão?

— Ainda não, mas qualquer dia quero conhecer Big Black River. E quero um cinto desse. Onde acho para comprar?

— Bem… seguinte, companheiro. Vamos falar sobre isso, mas primeiro me diga, tudo bem com você, meu querido?

— Podia estar melhor. Tirando a falta do cafezinho, do suco de laranja, da picanha no meu churrasquinho de uiquêndi… e desse seu cinto de couro… de resto, tudo is verigúdi, míster Lula.

— Que bom, companheiro. Mas isso tudo ‘tá faltando aí por culpa sua. Você que inventou o tal tarifaço.

— Touriféssel? Uótis touriféssel?

— Tarifaço. E não se faça de desentendido que hoje eu num tô pra gracinha não.

— Quipical’, míster Lula!

— ‘Tô calmo. ‘Tô até calmo demais — riu o presidente brasileiro.

O copeiro cheio de sorrisos serviu uma xícara de café a Lula.

— Está servido? — perguntou Lula a Donald sorvendo um gole e exibindo a xícara fumegante ao colega.

— Tanquiú! Míster Lula está me provocando…

— Agora eu que lhe digo, fique calmo, Dônaldi. Por que ficou nervoso? Tome um cafezinho que passa…

— Quando fico nervoso, gosto de pescar. Duiú laique fíchin, míster Lula?

— Venha pra COP-30 e você vai ver. Vamos pescar juntos no rio Amazonas. O Macron já confirmou. Vou eu mesmo preparar pra você um filhote de tambaqui que é uma delícia. Uma caldeirada, um pirãozinho, farofinha de banana da terra e arroz, hmmm… Gosta de peixes?

— Iés. Sou de gêmeos, me dou bem uíde fiches.

— Ótimo. Vamos pescar muito pirarucu. Você prefere vara ou carre…

— Pirar o uóti?!? — estranhou Donald, espremendo os olhos e fechando a cara. — Maidir míster Lula, estou sendo educado uidiú e não vejo razão para esse tipo de grosseria. Entendo português o suficiente para saber que o senhor está me mandando pirar o... e na vara!

— Ahahaha. O português tem dessas coisas, Dônaldi. Você diz uma coisa que parece outra. Não é palavrão, não, é o nome de um peixe, o maior do rio Amazonas, o pirarucu. Peraí que vou mandar uma imagem de um pirarucu pro seu vatizápi… minutinho só. Eu mesmo pesquei. Pronto, mandei. Veja aí.

— Rubio, plis, abra tumi meu uotizépi… Ó, que belo fiche. Bíuriful! É enorme. Greite, greite!

— E muito saboroso. Mas ainda prefiro o filhote.

— Por falar em filhote, aidônti aguento mais os filhotes que iú me mandaram aqui para me encher o saco, o neto do ditador e o filhote do filhote da ditadura. 

Imagem: Facebook. Autoria desconhecida.


— Dá um gelo neles, companheiro Dônaldi. Eles merecem.

— Aice? — Donald abriu um largo sorriso. — Gudaidia! Rubio, manda o Aice despachar os meninos de volta pro Brasil, plis! Como não pensei nisso antes? Veri tanquiú, míster da Silva! O senhor is mesmo a greite administrador, hein! Já haviam me falado, mas eu não acreditei.

Assim seguiram trocando afagos e amenidades, ora dividindo experiências administrativas sobre como limpar, temperar e fritar peixes, ora sobre como preparar um bom churrasco.

— Sei fazer uns molhos que dão outra qualidade ao churrasco — gabou-se Lula. — Faço um pesto que quando você provar — o brasileiro juntou todos os dedos da mão direita e deu um beijo nas pontas em feixe, lançando-o ao ar — nunca mais vai querer outro.

O papo ia bem, leve e solto, até que Donald esboçou falar algo sobre a mulher de Macron, mas Lula não deixou. “Muito amiga nossa, minha e de Janjinha”, explicou. O outro fez biquinho e fingiu compreensão.

— Voltando à coldicau — disse Donald, mudando bruscamente de assunto —, precisamos falar de negócios, maifrêndi Lula.

— Relaxe. Vou mandar o Haddad, o Mauro e o Álckomo aí, p’ra falar com você.

— Com o Rubio. Ele me representará.

— Justo o Rubio? Fala pra ele deixar o preconceito de lado e pensar no povo pobre dos Estados Unidos. Eu conheço o pobre, sei o que quer. Pobre quer comer carne, quer tomar suco de laranja e este cafezinho — exibe outra xícara na tela, que acabou de lhe servir o sorridente copeiro. — Vou até mandar entregar um presentinho pro Rubio.

— Oh! Ele adora ganhar presentes. Aitu. Mande um cinto igual a esse seu tumi, plis.

Donald chamou seu secretário de estado:

— Rubio! Ô, Rubio!

Dirigindo-se a Lula:

— Ele saiu, estava se queixando de dor de cabeça, deve ter ido tomar um Tylenol.

— Pó’deixar, mando sim. E vou mandar uma cachacinha da boa pro Rubio experimentar. Saíram umas cachaças novas no mercado, em São Paulo, que ‘tão dando o que falar. Ouvi dizer que são à base de Tylenol. Com limão, açúcar e gelo, é tiro e queda pra dor de cabeça. Nunca mais ele vai sentir nada na cabeça. Fala pra ele dividir com os filhotes aí, antes de despachar os meninos pro Brasil.

Depois de meia hora nessa toada, Lula considerou que era hora de se despedirem:

— Companheiro Trâmpi, se a gente não ganhar o Nobel da Paz, o de Química está garantido. Vamos dividir esse prêmio. Agora preciso desligar, minha cachorrinha Resistência ‘tá ansiosa para uma caminhada no entorno do palácio. Ela adora dar carreira nas emas.

— Compreendo, lírol Lula. Odeio o Obama, mas devo reconhecer que ele estava certo. Iuardegai! Você é mesmo o cara. Quando iú vier a Uóchintão, dê uma passadinha aqui para tomarmos um cafezinho. Só não se esqueça de trazer o pó. Nada como uma reunião de colegas de trabalho no cantinho do café para debatermos e decidirmos os destinos do mundo!

— Vou sim, com certeza. Qualquer dia desses apareço aí pr’um café ao vivo, quente e forte, como este que acabei de tomar. Põe mais um aqui, Lourival — disse, dirigindo-se ao servidor e erguendo-lhe a xícara. — Preciso mesmo desligar, companheiro Trâmpi. Tenho uma guerra a vencer contra a fome no Brasil.

— Antes, guíveme dinâmber ófior tchéulefão, lírol Lula. Plis!

— Número do meu telefone? Já lhe passei. É o mesmo da foto que enviei. Ligue sempre que precisar.

— Ó, zsênquiu! Abraço, bem apertado! Gostei de conversar com você.

— Também gostei muito da nossa prosa, Dônaldi. Tchau.

— Baibai. Desliga aí, maifrêndi Lulinha.

— Desliga você, Don!

— Você.

— Você!

— Você…

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Falo sobre o livro nesta crônica: “Entrevista sobre o meu livro”.


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27/09/2025

O cabo, o soldado e um caça F-35

 (Minha niusléter de 25/09/2025)


Dentre as inesgotáveis jabuticabas que brotam por este Brasil adentro, nada há de mais inusitado do que a atuação de uma bancada “trumpista” em pleno Congresso Nacional brasileiro. O Brasil é certamente o único país de todo o universo que tem, no Parlamento, duas bancadas governistas, oponentes entre si: uma formada por aliados do governo do presidente Lula e outra, de aliados do governo de Donald Trump.

A bancada trumpista tem por líder o deputado federal carioca, eleito pelo estado de São Paulo, Eduardo Bolsonaro, aquele cujo pai, na presidência, chegou a cogitar para o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, por conta de sua fluência num dialeto semelhante ao inglês e pela experiência em fritar hambúrgueres.

A ideia do pai parece que criou frutos tardios nas pretensões do filho, que há pouco mais de 120 dias se licenciou do cargo de deputado para atuar como embaixador de fato junto ao governo Trump. Mudou-se de mala, cuia e família para o grande país do Norte, onde mora numa confortável mansão às custas de PIX que lhe envia o generoso genitor. Eduardo retomou recentemente seu papel de líder da bancada “trumpista”, função que vem exercendo como “D.A.D.”, “deputado à distância”.

O governo de Jair, o pai, foi sabidamente um governo contra o Brasil, composto por ministérios bastante peculiares – outro pé de jabuticaba: ministérios contra a Saúde, contra a Educação, contra a Justiça, contra os Direitos Humanos, contra a Economia… Como o bom fruto não cai longe do pé, Eduardo Bolsonaro resolveu ser também um contraembaixador.

De fato, Dudu tem-se mostrado um exímio negociador. Em pouco tempo, já conseguiu do governo Trump um inédito tarifaço de 50% de taxação sobre as importações de produtos brasileiros, que gerou desemprego e inflação nos Estados Unidos, contribuição inestimável do nosso contraembaixador à autodestruição do império estadunidense desencadeada por seu próprio presidente.

O tarifaço acabou por se transformar num presentaço ao presidente Lula, que, a um ano do pleito em que disputará a reeleição, unificou a parte saudável do povo brasileiro em torno da bandeira da soberania nacional e, de quebra, escancarou de vez, a quem se recusar a fechar os olhos e a fazer ouvidos moucos, o quão nocivo é o bolsonarismo à nação brasileira.

Na esteira das sanções econômicas, vieram imposições políticas que explodiram como Tiu França no Supremo Tribunal Federal brasileiro. Tiu França foi o catarinense que, para demonstrar seu amor à pátria e ao ex-presidente, suicidou-se ao explodir uma bomba no pátio em frente ao STF. Já a bomba lançada por Trump teve melhor sorte e explodiu no interior da Corte, no colo do ministro Alexandre de Moraes, contra quem o governo estadunidense decidiu aplicar a lei Magnistsky.

A intenção, anunciada com pompa e glória pelo próprio Eduardo Bolsonaro e seu parceiro de surto quixotesco Paulo Sancho Pança Figueiredo como grande feito, era fazer com que o STF não condenasse papai Jair pela tentativa de golpe de estado que culminou na quebradeira de 8 de janeiro de 2023.

O feito internacional marcou uma evolução na performance de Eduardo Bolsonaro, que em 2017 chegou a dizer que para fechar o Supremo bastavam um jipe, um cabo e um soldado. Eis que ele convocou Donald Trump como cabo e o soldado Marco Rubio, ministro de Estado dos EUA. Em lugar do jipe, porém, Dudu Bananinha ameaça vir com um avião caça F-35. Um salto e tanto de qualidade, convenhamos.

Imagem: Lockheed Martin F-35 Lightning II. Imagem: Wikipediao


As ameaças proporcionaram a colheita de bom fruto na Primeira Turma do STF, responsável pelo julgamento da entidade Pai Jair. Por fruto, no caso, entenda-se a groselha, frutinha vermelha nativa dos Estados Unidos da qual o Brasil é o quarto maior exportador mundial. Foram quase quatorze horas de xarope de groselha servida pelo ministro Luiz Fux a seus colegas e a todos que tiveram saco (perdoem-me) para assistir ao seu longo, cansativo e inútil voto. Com bomba e com tudo, Pai Jair acabou condenado a 27 anos e três meses de prisão por diversos crimes.

O Brasil adota o regime presidencialista, mas o que não nos falta são reis. Temos um rei para tudo: o do futebol, o do baião, o da soja – e o meu vizinho de parede-meia em Capivari, o da cachaça (pausa para um merchã gratuito: a “Cachaça do Rei” é da boa, eu garanto). Fux se revelou o Rei da Groselha.

O ministro foi escalado pela ex-presidenta Dilma Rousseff em 2011 para integrar a seleção brasileira dos onze do STF. Entrou em campo com a disposição de quem mataria no peito os casos rumorosos pendentes na Corte. Passaram-se quatorze anos e ele resolveu que, finalmente, havia chegado a hora. Matou a bola no peito, fez sua jogada individual dentro das quatro linhas, mas foi logo desarmado e driblado pelos demais integrantes do próprio time.

A jornalista Mônica Bergamo chegou a dizer, semanas antes do julgamento, que Alexandre de Moraes estava isolado na Corte. A realidade mostrou que isolado estava Luiz Fux, e assim tem ficado cada vez mais. Até “búlin” (do inglês “bullying”, que significa… ah, você sabe!) ele sofreu dos colegas no dia seguinte. Confesso que nem me deu pena.

É hábito nas Cortes de justiça do país que, ao final dos votos, o presidente da sessão agradeça ao eminente colega prolator e lhe enalteça o trabalho, elogiando-o pelo “brilhante voto”. O cruel Cristiano Zanin, todavia, nada disse nesse sentido ao final da groselhada, mas bem que poderia ter dito: “agradeço-lhe, ministro, por voto tão Magnitsky”.


(Esta crônica integrará a coletânea “Quando a Constituição Respira”, organizada pela escritora Cleusa Slaviero, a ser lançada em livro em breve pela editora ComPactos)


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Imagem: Lockheed Martin F-35 Lightning II. Imagem: Wikipediao

25/08/2025

A folha em branco (#41)

Do Jardim da Casa Literária de Luís Antônio Albiero
ago 25, 2025

Estou com as mãos no teclado e nenhuma ideia na cabeça. Há uma folha virtual em branco aberta à minha frente e não sei sobre qual tecla darei o primeiro toque. O problema de sempre, a primeira letra, a primeira palavra, a frase de impacto com que devo iniciar meu texto.

Por onde começar?

De Glauber Rocha dizia-se que tinha sempre uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Cá para mim, não deveria ser difícil a ele sair por aí, filmando tudo o que lhe surgisse à frente, para só depois editar o filme, dar-lhe forma e contexto. O objeto colhido despertará a ideia, esteja ela adormecida ou nem se encontre em sua cabeça.

Não difere muito disso o ato de escrever. Minha câmera são meus olhos e, se eles me faltam, até porque estou parado aqui, diante do computador, o meu próprio pensamento serve-me de janela para a realidade que me envolve. Vasculho-o por todos os escaninhos mentais, rebobino a memória, examino-a cena a cena, arquivo por arquivo, cada objeto recolhido, e nada encontro de útil. Nada que seja original, o que me remete à canção em que Renato Russo se pergunta quais são as palavras que nunca são ditas.

O que não falta são pessoas soltando palavras, exsudando-as pelos poros, evacuando-as por todas as portas de saída. Há livros em profusão, há o rádio, a televisão, plataformas virtuais, redes sociais, blogues, vídeos, áudios, jornais, revistas, boletins e panfletos, uma infinidade de meios pelos quais milhões de vidas inteligentes expressam sua voz, expõem pensamentos diversos. Que diferença fará o que eu tenho a dizer, o que eu quero dizer? Que lugar no mundo terá meu texto, meu conto, meu romance?

Revisito os clássicos, os grandes autores, os que me inspiram e em cuja fonte busco saciar minha sede criadora, mas eles me assustam. Leio um parágrafo de Dostoievski e concluo que nunca escreverei como ele. Leio um conto de Machado e a mesma sensação me abate.

Abandono-os e decido ler novos autores. Recorro a um amigo, conterrâneo, João Mattos, que recentemente lançou um livro de contos (1). Deus do céu! O estilo é tão gracioso, elegante, encantador. Falta-me essa capacidade, que ele revela de sobejo, de transcender à realidade, à dureza concreta do real. Meu amigo, sem saber, sem querer, me enche de desânimo e me derruba. Vou a nocaute. Nunca escreverei como ele.

Sou resistente, porém. Resiliente, palavra da moda. Teimoso como um animal de carga que reluta a dar-se por vencido. O nocaute me derruba, é fato, mas não se consolida. Levanto-me com a convicção de que não preciso escrever como João. Nem como Machado, nem como Dostoievski.

Soberbo, talvez, ocorre-me que tampouco Machado ou Dostoievski, ou Shakespeare ou Drummond, nenhum deles escrevia como eu. Porque o meu jeito de escrever é só meu. Como o rio que corta a aldeia de Fernando Pessoa é maior, mais belo e mais livre do que o Tejo porque pertence a menos gente, também o manancial de palavras e ideias que escorre por meu ser também há de ter seu valor; afinal, só pertence a mim. E pouco me importa o valor que os outros darão ao que tenho necessidade de dizer.

Encho-me de coragem, desafio a folha em branco que me assombra e aperto, então, a primeira tecla.

(1) “Urdiduras”, João Bastos de Mattos, ed. Patuá.

🙏
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