25/04/2026

Fidelidade era no fio do bigode

Este texto nasceu de um comentário que fiz à crônica “Eu traí o meu barbeiro”, do Rodrigo Padrini (depois de ler a minha, recomendo ler a dele, aqui).

Dou-me por feliz por ter vivido esses anos todos sem jamais ter encontrado um Ivan Iákovlevitch pela frente, o barbeiro de São Petersburgo que num certo dia, sentado à mesa de casa ao lado da esposa para degustar o café da manhã, ao passar a faca para cortar o pão encontrou um nariz no meio de onde só deveria existir manteiga. Era o narigão do major Kovaliov, a quem o desastrado profissional da navalha atendera na véspera. Assim começa “O Nariz”, divertida novela do russo Nikolai Gógol escrita em 1836.

Uma das poucas lembranças que tenho de meu pai é do dia em que ele me levou ao barbeiro na pequena Rafard, cidade onde nascemos eu, Tarsila e Paulo Betti, dentre outros mais notáveis, como o dono da barbearia de sobrenome Abel — o prenome sempre me foge.

Não tive como adotá-lo, “fidelizá-lo” à moda dos atuais prestadores de serviços do ramo, pois eu mal havia completado cinco anos de idade e meu pai morreu pouco depois. Isso remonta ao ano de 1968. Mudamo-nos eu, minha mãe e minha irmã Eliana para a vizinha Capivari logo em seguida.

Meu primeiro barbeiro “fidelizado” foi Geraldo, que mantinha estabelecimento bem defronte à nossa casa, no bairro conhecido como Buraco da Onça, em Capivari. Geraldo Barbeiro, como era conhecido, havia tido uns problemas com a lei, algo como extrair dentes de ouro de moradores do pacato condomínio dos jazigos perpétuos durante o sepulcral silêncio noturno, mas, afinal, quem nunca, não é mesmo? Em compensação, o cirurgião-dentista dos campos santos tocava sanfona que era uma beleza. Grande músico, melhor ainda como profissional da barba e do cabelo, bigode incluso.

Desde então, meus sempre revoltosos cabelos passaram por múltiplas mãos de tesoura, entremeadas por longos períodos de “fidelização”, como o saudoso “Português“, dono de farto bigode que tinha salão na área externa do mercado municipal; depois vieram o Dêividi e o Cláudio, todos em Capivari, já autoproclamados cabeleireiros, e seu Henrique, um senhorzinho muito simpático de Americana, onde residi por nove anos. A fidelidade, até então, prescindia de cartões, contratos escritos ou agrados que fossem além de um bom serviço prestado. Era mesmo à base do fio do bigode. No máximo, um cafezinho.

Hoje em dia, estou oficialmente fidelizado, sem aspas, não com um barbeiro, mas com uma dessas bárberes (“barbers”) modernas que de uns anos para cá se proliferaram pelas cidades com esse pedante nome inglês que ofende a tradição brasileira de profissionais como o inesquecível Abel de Rafard.

Recentemente até tive um corte gratuito, fruto de minha fidelidade anotada num cartãozinho em que a atendente colou um adesivo a cada novo atendimento. A cada dez adesivos, o serviço é gratuito. Fica no mais popular xópin de São José dos Campos, um salão dotado de cinco ou seis cadeiras em que se revezam vários profissionais.

O estabelecimento tem nome espanhol, “Don Guillermo”, uma chiqueza que só. Eles me enviam mensagens pelo vatizápi para me contar da alegria de terem me recebido em seu salão, para pedir avaliação dos serviços prestados e para me dizer que estão com saudades de mim, já que não mais apareci desde a última visita na semana anterior, como se cortar cabelos e aparar barbas fossem necessidades como comer o pão nosso de cada dia, esporte perigoso que levou Ivan Iákovlevitch a encontrar o nariz do seu freguês no miolo de um deles.

Oferecem água, café e até cerveja, têm sempre uma boa e agradável seleção de músicas da melhor qualidade, MPB e estrangeira, e cuidam dos meus cabelos e de uma barba que tentei em vão cultivar durante toda a vida e que só vingou agora, quando os fios já vêm branquinhos de fábrica. Esta barba tardia serve para me conferir novo disaine (“design”), uma solução barata de harmonização facial que me dá ares de intelectual, o que é muito apropriado a este escritor recém-nascido que há poucos meses lançou o primeiro livro impresso (”O Onomaturgo e Outras Histórias“, de contos, pela editora Rua do Sabão).

São tantos os profissionais do estabelecimento que é difícil repetir algum que já tenha me atendido. Além do corte e do cuidado com a barba, eles aquecem uma toalha e com ela me vedam os olhos. Chamam a isso de “barboterapia” e, de fato, é um tratamento tão relaxante que beira ao terapêutico.

Desde a infância, desde que passei a frequentar barbaria sem que fosse levado por meu pai, ausente por força do óbito, ou minha mãe, por já me considerar maduro o suficiente, a minha grande dificuldade é responder à inevitável pergunta que todos fazem logo que me sento na cadeira: “como quer o corte?” Até hoje, do alto dos meus 62 anos, não aprendi a responder. Daí a importância da fidelização à moda antiga: de tanto me cortar os cabelos, o mesmo profissional já sabia o que fazer e dispensava a pergunta.

A novidade é a barba, cujo modo de fazer-lhe o contorno atende pelo nome próprio de “italiana”, como recentemente aprendi com um dos profissionais do “Don Guillermo”. T’aí mais uma demonstração de que, de fato, dar nomes às coisas facilita muito a vida em sociedade.

Por via das dúvidas, procuro jamais me dirigir ao barbeiro com o nariz empinado. Não quero correr o risco de ele aparecer no pão do navalha que vai me atender.

Capa do livro “O Nariz”, de Nicolai Gógol (1836), editado pela Antropofágica

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Falo sobre o livro nesta crônica: Entrevista sobre o meu livro”.

Grato, um abraço forte, sinta-se em casa e volte sempre.

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Luís Antônio Albiero

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