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05/06/2026

Rocinante sombrio, o filme

Conta-se que no início dos tempos literários, ao menos nos primórdios do romance tal como o conhecemos, vivia numa aldeia de La Mancha, no coração da Espanha, um fidalgo de compleição seca, rosto enxuto, pernas compridas e delgadas, que se deu a chamar de Quixote.

Dom Quixote de la Mancha, cujos miolos secaram de tanto ler novelas de cavalaria, decidiu sair pelo mundo praticando sua justiça particular munido de uma armadura enferrujada e um elmo remendado com papelão, montado num pangaré a que, depois de pensar por quatro dias, deu o sugestivo nome de Rocinante. E a escolha se deu porque, em seu conceito, o nome era “alto, sonoro e significativo”.

Rocinante, todavia, é sinônimo de rocim, vocábulo a respeito do qual nos diz o Michaellis que significa “cavalo pequeno, magro e fraco”.

No Brasil de 2026, esse tipo de animal tornou-se famoso graças a um filme brasestadunidense que tem por título, na língua preferida dos patriotas da bandeira alheia, “Dark Horse”, ao qual venho chamando de “Darquirrorse”, que na inculta, bela e derradeira flor do lácio significa pangaré negro. Mais precisamente, o título da película remete à ideia do azarão, do cavalo paraguaio que, no turfe, por puro lance de sorte, acaba por vencer uma corrida. 

Louvemos, de início, o acerto do nome, eis que pangaré paraguaio é referência ao ex-presidente que, por um tropeço da história, deu a sorte de vencer a eleição presidencial de 2018. O azarão chegou lá, e chegou com um corpo de vantagem, mas, por conta da tentativa de golpe que culminou no 8 de janeiro de 2023, está fora do páreo e assim estará pelos próximos vinte e sete anos. Nem na modalidade suipisteique (“sweepstake”), o bolão do turfe, alguém arriscará apostar de novo no bicho.

Não me tomem por contraditório. A despeito de reconhecer o acerto na escolha do nome do filme em homenagem ao ex-presidente, confesso que prefiro algo ainda mais significativo, por isso elegi “rocinante sombrio”, o cavalo que, mesmo pequeno, magro e fraco, veio do reino das sombras para assombrar o povo brasileiro.

E do esgoto em que vivia trouxe consigo, apinhados em seu dorso, a atual esposa e um bando de filhos, os machos numerados de Zero Um a Zero Quatro, assim chamados por ele próprio (à soturna potranca, chamou de fraquejada), o que um raciocínio lógico, puramente matemático, nos conduz a concluir que ele mesmo seria o Zero Zero.

E zero é, de fato, o número de sua sorte, porque zero foi tudo o que ele produziu enquanto respondeu como “ciô” (”C.E.O.”) do Brasil por quatro anos (menos um mês, o último, quando nosso matungo com histórico de alazão se entregou a profunda depressão e à erisipela até fugir, de mala, cuia e atestados falsos, para os Estados Unidos, à espera de um golpe de estado que não se consolidou).

Estimado leitor, estimada leitora, pergunto-vos se é de vosso conhecimento que, durante sua gestão, nosso rocim paraguaio tenha desenvolvido algum projeto sério, digno de nota, alguma politica pública que tenha partido de um planejamento de Estado, algo como o “minha casa minha vida”, o “luz para todos”, o “Prouni”, o “mais médicos”, de seu principal opositor. Zero, nada!

Nem vou incluir no cômputo desse vazio administrativo a ponte de madeira de dezoito metros reconstruída pelo Exército na BR-307, em São Gabriel da Cachoeira (AM), por R$255 mil, para não negativar o saldo e para que o caro leitor ou cara leitora não me tomem por debochado. Dita obra é aquela que ficou famosa por conta da inauguração a que nosso ex-PR, atual PR-Zidiário, esteve presente, evento cuja pirotecnia custou R$711 mil aos cofres públicos, quase três vezes o valor da própria obra.

Ao olhar para o cocho vazio dos frutos de sua absoluta improdutividade, nossa alimária presidencial decidiu tomar para si obras alheias, como a transposição do rio São Francisco. Tirou proveito do fato de que lhe sorrira a sorte com a possibilidade de inaugurá-la por inteiro, embora ele mesmo tenha participado de não mais que sete por cento da obra toda. Iniciada nos primeiros governos Lula, primeiro presidente da História que teve a coragem de tirar o projeto do papel desde que Dom Pedro II o concebera um século antes, teve executados 92% até Dilma ser tirada a fórceps da presidência.

Outro projeto que lhe caiu do céu feito maná direto no seu cocho foi o PIX. Concebido no governo Dilma, gestado pelo Banco Central durante os dois temerários anos do governo que lha sucedeu, o PIX foi dado à luz na gestão de Roberto Campos Neto, sob a presidência do rocinante sombrio, que não fazia ideia do que se tratava quando o inovador sistema de pagamentos já havia entrado em funcionamento.

Quem sai aos seus, diz o ditado, não cai distante da árvore. Zero Um e Zero Três foram recentemente aos Estados Unidos, primeiro o deputado, depois o senador, arquitetar um plano infalível para tirar o pai da forca, digo, da cadeia, e, de quebra, inviabilizar a reeleição do atual presidente. Essa, ao menos, foi a desculpa. A luz que se acendeu sobre o esgoto, no entanto, a partir do telefonema vazado entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, revelou que o filme em homenagem ao patriarca do clã não passava de açude destinado a receber dinheiro público canalizado para garantir a estadia de Eduardo e família nas terras de Tio Trump.

Observai o atento leitor, a atenta leitora. Flávio é candidato a presidente da República. Quando viu o irmão gabar-se de ter convencido o governo Trump a impor sanções ao Brasil, consubstanciadas na forma do tarifaço, já deveria ter-lhe dado um pito público pela demonstração inequívoca de que a família não está nem aí para os interesses do Brasil e dos brasileiros. Não só Zero Um aplaudiu o irmão como acabou ele mesmo indo até Trump para ao seu lado fazer uma fotografia de campanha. Do salão oval da Casa Branca saiu festejando medidas que incluíram o novo tarifaço e ameaças concretas ao brasileiríssimo PIX. 

Nosso Incitatus, o potro senador, tentou desmentir que tivesse negociado o PIX depois que viu despencarem seus índices de intenção de votos, mas eis que novamente o poldrico Zero Três surgiu no cenário para pregar sua substituição por um certo Zelle, mecanismo de pagamento instantâneo adotado nos Esteites (“States”, no original do idioma invejado pelos patriotas). 

Resumo da ópera bufa: o herdeiro do falso Messias e de seu fanático eleitorado acabou jogando fora o único “legado” (prestai atenção nas aspas) do governo do pai. Embora concebido no governo Dilma e gestado no de Temer, a criança só veio a nascer durante a triste era BolsoNero. Flávio incumbiu-se de lhe dar um banho e acabou por jogar fora a água da bacia com a criança junto — a única coisa útil que, como a flor de Drummond que rompeu o asfalto, brotou no governo do pai, que ele, forçando muito a barra, poderia chamar de sua.

Quanto à ideia de fazermos o Zelle, sou obrigado a fazer coro com o rocim Zero Três, o já consagrado camisa dez da seleção de Lula.  Também quero ver todos os brasileiros fazendo os “L” na próxima eleição.

23/06/2023

Plot Twist

Era uma vez um juiz de certa capital agrícola de um modesto estado de seu país que tinha por esporte predileto maltratar advogados com os quais interagia nas lides judiciais.

Muito vaidoso, deu-se conta o pretor, certo dia, de sua insignificância. Inconformado, resolveu projetar seu nome empreendendo perseguição logo ao líder político mais amado da nação. Tal empreitada tornou-o, de fato, conhecido por todo o país e pelo mundo afora.

O juiz humilhou o líder mais amado, a quem condenou e mandou prender sem crime nem prova alguma, e, com o advogado deste, praticou o esporte de sua preferência.

Por tal proeza, passou o magistrado a ser tratado como herói nacional. Além da fama, amealhou muito capital promovendo palestras para ricos empresários em que expunha o seu cativo como se este fosse um ser humano exótico, a exemplo dos selvagens que, em séculos recentes, eram apanhados de tribos da América do Sul e da África e exibidos como monstros em espetáculos públicos na Europa.

Com seu modo peculiar de exercer a magistratura, sem qualquer limite ético ou legal, abriu e pavimentou o caminho para a eleição, ao cargo de presidente da República, de um opositor de seu enclausurado, um sujeito desprovido de qualquer brilho, espécie de palhaço sem graça conhecido por suas diatribes e verborragia extremista.

Eleito o adversário de seu prisioneiro, o juiz ofereceu ao vitorioso a própria alma, com a condição de que em retribuição lhe fosse concedido ascender à excelsa judicatura.

O presidente recém-empossado levou-o então para o seu governo. Deu-lhe status de ministro e muito poder, com promessa de conduzi-lo ao tribunal mais elevado do país. Não tardou, porém, para tratá-lo como cão sarnento e dar-lhe um insultante chute no traseiro.

Ainda assim, o ex-juiz, como cachorrinho desprezado pelo dono, para ele voltou correndo, rabinho entre as pernas e a cara pidonha dos animaizinhos carentes de afeto e ração. Com auxílio envergonhado do antigo dono e ainda valendo-se da fama que obtivera com a prisão do líder mais amado da nação, o venal ex-magistrado acabou eleito senador por seu estado de origem.

Já o mais amado, por conta das injustiças que contra si empreendera o ex-juiz, eis que fora enfim libertado da masmorra em que estivera confinado. No primeiro pleito seguinte, derrotou seu opositor e foi novamente eleito presidente da República. Logo indicou, para ocupar vaga na corte suprema, o seu próprio advogado, o mesmo que com galhardia e competência houvera enfrentado as arbitrariedades do antigo herói de renome internacional e pés de barro.

Para valer a nomeação, todavia, o advogado teve de se submeter a uma sabatina no senado, como determinava a Constituição.

Quis o destino que o primeiro a lhe dirigir perguntas fosse exatamente o cachorrinho, agora elevado à condição de senador da República, graças ao apoio do Calígula dos trópicos defenestrado da presidência, embora ele próprio prestes a perder o cargo em razão das ilicitudes que cometeu no trânsito entre a magistratura e a política.

Na câmara alta do Parlamento, o Incitatus tupiniquim, em sua versão canina, emitiu uns grunhidos, uns latidos tímidos, mais próximos do grasnado abafado de marreco, aos quais o fleumático advogado respondeu com argúcia e respeitosas sutilezas, esbanjando sabedoria. Para desalento do parlamentar que abdicara da toga em busca do sonho supremo, o causídico teve seu nome aprovado por ampla maioria dos senadores.

Plot twist: o cachorrinho, que tudo fizera para alcançar seu desejo de chegar ao tribunal mais importante da federação, eis que acabou atuando como coadjuvante na cena final em que ao cargo por ele almejado ascendeu justamente seu desafeto, a quem, em passado recente, houvera tratado como rábula ordinário, com imenso desprezo, desrespeito e humilhação.

Que baita enredo, que final inesperado! Que história sensacional!

(Luís Antônio Albiero, de Capivari, SP, em Jacareí, SP, aos 23 de junho de 2023)


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