Wílson e Edmílson conversavam durante o cofibreique — o intervalo para o café, dito em línguas estrangeiras — de uma palestra sobre a onda de feiquinius, mentiras em forma de notícias (nas mesmas línguas) que vêm inundando a sociedade brasileira, em especial pelas redes sociais.
— Está vendo aquele cara ao lado do bebedouro? — perguntou Wílson ao colega.
— Sim, o Dílson. É ele ali, tomando água.
— É isso que você acredita estar vendo?
Edmílson estranhou a pergunta.
Empertigou-se, esfregou os olhos, firmou a vista na direção do objeto do comentário e disse, com certo ar de gracejo:
— Não, eu não acredito. Eu estou vendo. É a pura realidade.
O outro cruzou os braços e riu o riso dos soberbos.
— Não, meu caro. Você, por alguma razão que se construiu em seu íntimo, está apenas convencido de que é o Dílson e que ele está tomando água.
— Uai, se aquele ali não é o Dílson tomando água… quem é então?
— Pode não ser o Dílson.
— Como assim? Olha lá, o cabelo comprido amarrado com fita, o corpo franzino, os olhos pretos olhando para o infinito. Dílson sempre teve esse olhar perdido.
— Ainda assim, pode não ser ele.
Edmílson resolveu fazer troça:
— Irmão gêmeo? Não sabia que Dílson tinha irmão gêmeo. Como se chama? Quequeílson, Wílson!? Claro que é o Dílson!
— Quequeílson, não. Deixadílson, Edmílson.
— Ahahaha! Você, sempre espirituoso.
— Falo sério. Para ter certeza de que aquela figura, que de fato muito se parece com o Dílson, é ele mesmo, só perguntando — ponderou Wílson.
— Uai, então vamos até lá e resolvamos isso agora mesmo. Mas não precisamos perguntar, é ele. O próprio Dílson, bebendo água. Estou lhe dizendo!
Mantendo a aura de superioridade, Wílson indagou:
— Está certo de que é água o que ele bebe?
— É água que ele bebe, com certeza. Olha lá, o galão enorme de vinte litros de água mineral. Olha, olha! Ele pegou um copo plástico do dispensador, baixou até ficar sob a torneira, acionou a torneirinha, esperou encher e agora está bebendo. Que dúvida você pode ter de que seja ele mesmo?
— É que pode não ser. Como pode não ser água. Tem certeza de que aquele galão é mesmo de água, e água mineral?
— Amododucéu! Você só pode estar brincando, Wílson.
— As coisas nem sempre são o que parecem, meu caro Edmílson.
— Você está negando a verdade, Wílson. Negando o óbvio, o que é notório, evidente!
— Ah a verdade! — suspirou Wílson. — A verdade, meu amigo, são muitas. Não existe uma só verdade. A verdade tem nuances que devem ser consideradas.
— Como assim, meu amigo? A verdade é uma só...
— O galão pode não ser de plástico. Ou não ter capacidade para vinte litros, seja do que for. A água pode não ser mineral, pode ser de torneira. Pode ser que nem seja água.
— Sim, quanto a isso, posso até concordar. Mas, no resto, veja bem. Dílson, cabeludo, magrinho, olhos pretos, jeitão moleque de se vestir… Copo, galão, torneira… Qual a dúvida?!?
— O cara da palestra estava dizendo até agora. Você estava lá, está aqui, você ouviu. Certamente estava prestando atenção. Para ter certeza de que um fato existiu, é preciso examinar os elementos de prova.
— A prova testemunhal é um meio de prova. E eu estou vendo, estou dando meu testemunho. Você está vendo. É Dílson tomando água.
— A prova testemunhal, você sabe… É a… Enfim, depende sempre dos pendores ideológicos da testemunha, das suas crenças, da sua formação intelectual, cultural. Da sua capacidade cognitiva. Do seu olhar cuidadoso ou não. Da sua honestidade!
— Sim. Trazendo para o caso concreto, o que você propõe? Irmos até lá e indagarmos ao Dílson se ele é mesmo o Dílson? Se a água que ele bebe é mesmo água? Se o galão de plástico é…
— Sim, sim. Talvez tenhamos que recorrer até a um exame pericial para nos certificarmos de que a água é água, e é mineral; de que o galão é galão, que é de plástico, e que comporta mesmo vinte litros. E até que Dílson é Dílson! A palavra de um perito haverá de ser também de grande valia para deslinde desta nossa celeuma, mas não temos perito disponível neste momento para afirmar isto ou aquilo.
— Você está exagerando, Wílson. Vamos lá conversar com ele. É o que basta. Tiramos essa dúvida, que só existe na sua cabeça, agora mesmo. E ponto!
Caminharam, resolutos, cada qual carregando suas convicções. Ou a ausência delas. Aproximaram-se. Edmílson se adiantou:
— Olá, Dílson, como vai? Você acredita que o Wílson aqui está duvidando de que você é você? E de que essa água que você está tomando não é água, e que esse galão não é de plástico…
— Boa tarde, senhores — respondeu seco o rapaz magérrimo de cabelos compridos, presos com uma fita rosa.
Ele olhou para a dupla que o abordava por longos segundos, como se tentasse compreender o que acontecia. Examinou-os das cabeças aos pés, da esquerda à direita, como se não os reconhecesse. Por fim, disparou:
— Seu amigo tem razão, de fato eu não sou o Dílson. Sou Adílson, irmão gêmeo dele. Desde crianças temos hábitos semelhantes que trouxemos à idade adulta, como cultivar este rabo-de-cavalo, este estilo despojado de vestir…
Edmílson estancou, estupefato. Nem mesmo Wílson acreditava no que ouvia; não se conteve e, para surpresa do litigante na quezília, indagou:
— Como assim, você não é o Dílson? Eu nunca soube que Dílson tivesse um irmão, ainda mais gêmeo…
Edmílson estava perplexo com a reação inesperada do amigo. O alvo da discórdia reagiu com serenidade. Voz tranquila, disse:
— Não entendo sua razão. Sou Adílson, irmão gêmeo do Dílson. E, de fato, não estou tomando água, mas suco de limão. E este galão, observem bem, é de vidro.
O ar soberbo que Wílson ostentara até há pouco dissipara-se. Já não tinha convicção do acerto de suas convicções. Decidiu tirar a prova, fazer ele mesmo o exame pericial que, nas circunstâncias, prescindia de um experto juramentado. Pegou um copo no dispensador, encheu-o com o líquido, sorveu-o.
— É água! — gritou exultante, como Arquimedes bradando “eureka!” — E você, evidentemente, é o Dílson querendo nos enganar — comemorou, rindo e batendo nas costas do rapaz que se tornara o centro da controvérsia.
— Arrá, malandro! Quase me pegou.
Wílson havia recuperado a segurança de antes. Edmílson sentia o cérebro fervilhar. O magricela cabeludo manteve o olhar impassível, as expressões rígidas na face, o corpo calado no gestual. Ingeriu o que restava do líquido no copo que tinha à mão e comentou, mirando os olhos de Wílson:
— Se você acredita nisso…
Deu-lhes as costas e caminhou lentamente para bem longe dos querelantes.
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“A Verdade saindo do poço” (1896), de Jean-Léon Gérôme
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