22/06/2025

Petricor

IMPORTANTE: Prezada leitora, prezado leitor. Preciso muito saber da sua opinião sobre este conto, sobretudo quanto à temática e à forma como é tratada. Se puder me dar retorno, desde já lhe sou grato. Se não for possível deixar seu comentário ao final desta publicação, na página “Casa Literária“, por qualquer restrição da plataforma Substack, peço-lhe que o envie pelo e-mail laalbiero@yahoo.com.br ou comente na postagem replicada no meu Facebook ou blogue.


Houve tempo em que o caminho da roça era um verdadeiro banho de poeira vermelha. Agora, com o asfalto, o pó incomoda apenas no curto trecho entre o carreador e a estrada, suficiente, ainda assim, para sujar tanto quanto antes. A terra impregna na roupa dos trabalhadores de um modo que não tem como tirar. Os cortadores de cana-de-açúcar se aglutinam sobre a carroceria do caminhão, em que se adaptaram algumas tábuas para servir de bancos, cobertos de lona.

A viagem da volta após o término da extenuante jornada de trabalho é marcada por odores de homens, mulheres e umas poucas crianças, amontoados como animais, suados e exauridos por quase dez horas ininterruptas sob a nudez do sol. Ninguém, porém, se incomoda com o mau cheiro, acostumados que estão a respirar a catinga uns dos outros.

O caminhão parece que vem tropeçando de tão velho. Frequenta oficinas mecânicas como um idoso doente a um hospital – tantas vezes lhe diagnosticaram a morte, à qual resiste, teimoso como a gente que carrega em seu dorso. 

O melhor da jornada de trabalho é o caminho da volta, diz Ana de Chico, que se arrisca a cantarolar. Os demais vaiam e riem. Uns contam piadas, outros tratam de banalidades domésticas. Os problemas de cada um contam pouco nessa hora. A maioria troca impressões sobre o trabalho. 

O vozerio forma um mosaico oral de sotaques variados. Durval, baiano, discute com o velho Ticão, paranaense de carapinha branca, quem teria cortado maior quantidade de cana-de-açúcar no dia. O nordestino não concorda com Ticão, que proclama que o campeão teria sido o mineiro Isaías. Jeremias, negro da terra, diz que concorda, caprichando no “r” retroflexo característico do interior paulista.

As margens da pista são ambas inteiramente plantadas de cana-de-açúcar. Isaías sente o cheiro de terra, molhada pelo breve chuvisco que caíra há pouco; agrada-lhe a fragrância adocicada. Ele joga o toco do cigarro que guardara do breve descanso pós-almoço e aspira com força o cheiro que, de tão doce, parece emanar dos pés de cana, como se houvesse um deus das matas de cujas veias escorresse uma seiva que banhasse o solo, espargindo o perfume que se sobrepõe ao de suor dos trabalhadores.

Olha para Olinda, sua companheira, parda de quase trinta. Ela usa um chapéu de aba larga, como todas as outras mulheres do grupo. Também como as demais, traz um lenço debaixo do chapéu que lhe esconde os cabelos rijos de não lavar, ou de só os lavar uma vez por semana.

Nas casinholas onde moram não há água encanada, nem energia elétrica. Ajeitam-se com velas e lamparinas e buscam em baldes a água que lhes fornece dona Luzia, mãe do turmeiro Gumercindo, o dono do caminhão e daquilo a que chamam de casa, pela qual pagam aluguel que vem descontado do ordenado. A paga pelo labor vem tão repleta de despesas pelo pouco que lhes abastece o patrão que quase nada lhes sobra em espécie.

No retorno, os trabalhadores são deixados perto de onde moram. A maioria desce no ponto final, defronte um boteco vizinho à casa do patrão, onde alguns dos homens adentram. Isaías é um deles.

Olinda pede para que não demore, que traga um quilo de feijão, pão e salaminho para o jantar. Leva consigo os apetrechos do marido, o podão, a garrafa de água, a de café e a marmita de alumínio vazia, acondicionados num grande saco de lona. 

O boteco é pequeno, mal comporta o grupelho de trabalhadores. A luz é insuficiente. Do rádio a válvula, exposto numa das prateleiras ao lado dos maços de cigarro, ouve-se o noticiário d’A Voz do Brasil.

Quase dez da noite, já são quatro as garrafas de cachaça vazias sobre o balcão. A porção de mortadela e azeitonas há muito deixara de existir. Pendendo de bêbado, Isaías tem o rosto moreno brilhando de suor. Diz coisas desconcertadas. Volta-se para Ticão, aponta-lhe o dedo como se empunhasse uma arma. Solta palavrões, balbucia o nome de Olinda e coisas que ninguém compreende, nem se esforça para entender. E tomba.

Ticão, que mal se segura em pé, tenta levantá-lo. A muito custo, ele e Chico conseguem levá-lo até a casa. Olinda o recebe aos gritos e palavrões, esquecendo-se de que as crianças dormem. Isaías não revida. Cambaleante, ruma à cama, que fica bem perto da porta. Desaba e ronca. As crianças não chegam a acordar, acostumadas com gritos e a dormir famintas.

Na manhã seguinte, domingo, os meninos já longe de casa, Isaías e Olinda conversam ainda no leito. Do quintal, vem um cheiro de estrume. Uma galinha passeia com a ninhada pela casa, sobe na mesa..

Foto: Roberto Faria, via David Arioch - Jornalismo Cultural

 

Isaías olha para a mulher, abre um sorriso e começa a beijar-lhe o rosto, voraz feito lobo sobre a carniça. Morde-lhe as orelhas, puxa-lhe os cabelos duros como esponja de alumínio. Isaías procura, mas não encontra em Olinda o aroma terroso, a fresca sensação do orvalho matinal.

As mãos grossas de Isaías envolvem, firmes, os peitos já não tão rijos de Olinda, que responde com beijos no rosto do amante. Ela evita a região da imensa cicatriz da face direita do parceiro, resultado de antiga briga de bar.

As pernas magras de Olinda não impedem que delas Isaías se delicie, que lhe corra a língua desde o tornozelo. Ele morde as panturrilhas, as coxas, as nádegas. Gemem um e outro. Ameaça beijar o sexo da mulher, mas o forte odor o repele. Volta os lábios para os seios e segue beijando.

Ambos ofegam. Olinda escorrega os dedos grossos do trabalho duro sobre a carcaça do parceiro. Desce as mãos às coxas, toca-lhe o sexo.

— Merda! Desse jeito não vai dar! — grita e se desgruda do corpo do homem.

— A culpa é sua, sua fedorenta! Porca, filha de uma égua!

Isaías levanta-se ligeiro, envergonhado, o brio ferido. A galinha e os pintinhos correm, em pânico. Enquanto se veste, ele não poupa ofensas à mulher:

— Onde é que eu ‘tava com a cabeça quando inventei de juntar os trapos com uma mulher que fede a urina e alho, e com esse bafo de jiboia!? Não tem homem que consiga.

Soluçando, Olinda procura defender-se:

— Até treis meis atrás, ‘tava tudo bem. Agora a culpa é minha? Seu bêbado, sem vergonha. Seu frouxo!

Isaías dá um pontapé no rosto de Olinda que a faz sangrar. Sem forças para revidar, ela se debruça sobre o travesseiro, tinge-o de sangue, encharca-o de lágrimas. Seu homem sai sem destino. 

Ele chega nos fundos de um clube de grã-finos. Sem ser percebido, escala o muro e se senta sobre ele. De cima, contempla a beleza do lugar e sua gente chique. Gente bonita, alegre, tão distante de sua realidade de boia-fria. Gente sustentada pelo meu trabalho, pensa.

Fixa os olhos na piscina do clube. Detém-se a observar as meninas, suas nádegas perfeitas, as coxas volumosas, os peitos firmes querendo saltar dos biquínis. Procura esquecer Olinda, feia, tão nova e já envelhecida, sem qualquer graça.

Um rapaz conversa à beira da piscina com uma bela morena, de biquíni tão pequeno que parece nua. Lembra sua Olinda, bem mais nova. Sentada na cadeira, as pernas abertas, óculos de sol, ela expõe o ventre na direção dos olhos de Isaías, que imagina ver-lhe os pelos do púbis e já não enxerga as peças do maiô. Ele deseja as coxas bronzeadas que vê.

A moça levanta-se a convite das amigas. Vão jogar voleibol. À medida em que pula, seus seios balançam com graça e todas as suas delicadas formas serpenteiam e se acentuam. Isaías pensa em Olinda, dez anos atrás, como era linda, como eram apaixonados.

Num lance exagerado, a bola, caprichosa, ricocheteia numa pedra e se acomoda próximo ao muro onde Isaías está, atrás dos vestiários, de forma que nem da piscina, nem da quadra de vôlei se pode ver. A garota que o encantara vem buscá-la.

Da grama há pouco regada provém o cheiro de terra molhada. A garota abaixa-se para pegar a bola e não vê nem percebe Isaías aproximar-se por trás. Não tem tempo de gritar. Isaías a agarra, tapa-lhe a boca com as suas mãos enormes e calosas, tira-lhe o quase nada que veste. Ela desmaia, não tem como resistir. Ele aprecia seu corpo nu, inerte, indefeso, uma deusa em seus braços.

Enlevado pelo frescor da menina, ele se abaixa para aspirar de perto e melhor os odores de sua intimidade. Isaías sente-se levitar com o cheiro, doce como a cana, que se confunde com o da água caída sobre o solo gramado e com o da seiva vertida do ventre da deusa, a escorrer pelas pedras e plantas, da deusa domada, toda nua, toda sua, dormente em seus braços. Ele morde as orelhas com cuidadosa voracidade, depois o pescoço, as coxas, as nádegas, belas como um par de luas cheias.

Tudo gira no entorno de Isaías, que rola com a garota, ainda inconsciente, sobre a relva da qual provém o olor que se mescla com o cheiro de ventre de menina, perfume de mulher em desabrocho que o inebria, de Olinda rejuvenescida, o orvalho da manhã que há pouco buscava na companheira.

Isaías deita-a sobre o gramado para tirar sua própria camisa. Olha desapressado para a bela mulher que tem diante de si e nela reconhece a sacralidade de uma deusa. Adivinha-lhe a virgindade menina e a traz de novo junto ao próprio peito, agora nu. Isaías a abraça com intensidade, com força tal que, súbito, ele decide converter em brutal ternura, como se agora a quisesse proteger, como se defendesse uma filha do monstro que a ataca, como se lutasse para salvá-la de si mesmo.

A demora da moça preocupa as amigas, que saem a buscá-la. O grito doloroso e prolongado da primeira que vê a cena acompanha Isaías até atrás das grades.

Na manhã seguinte à noite maldormida, por conta do duro castigo que lhe impuseram os companheiros de cela, Isaías é levado à presença da autoridade judicial. No corredor do fórum, Olinda o aguarda, aflita. Não lhe permitem, porém, que fale com ele.

Ela se desfaz em prantos ao vê-lo passar cabisbaixo diante de si, escoltado por dois policiais fardados que o apressam com empurrões nas costas, a caminho da sala de audiência, as algemas prendendo-lhe os punhos, o andar claudicante, sem coragem de olhar para a mulher.

Da cela, Isaías traz o cheiro de cimento mijado, a fetidez da miséria humana impregnada em sua roupa. 

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NOTA: eventuais alterações podem ser feitas a qualquer momento pelo autor na publicação original, aqui.

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14/06/2025

Um nome para minha IA (#34)

Minha “IA” (sigla utilizada para designar inteligência artificial) ainda nem foi concebida, mas já tem nome.

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Dar nome é algo importante. Está na Bíblia, logo no Gênesis, versículos 19 e 20. Contam as sagradas escrituras que Deus concluiu a criação de todo animal do campo e de toda ave dos céus e os levou a Adão, “para este ver como lhes chamaria”; e tudo o que Adão chamou, a toda a alma vivente, “isso foi o seu nome”.

Ainda não havia pessoas a batizar, por evidente, pela singela razão de que as duas únicas existentes vieram já com os nomes de fábrica, mas coube ao macho do casal recém-criado dar nome às coisas, aos animais, aos fenômenos da natureza e a toda Criação que o cercava, incluindo Caim, Abel e toda a prole (frutos de flagrante e inevitável incesto, mas viremos essa página). Era o que, milênios depois, viria a ser chamado de poder de “dar nomes aos bois”, como lembra o escrivão, personagem de um dos meus contos, do que dá nome ao livro “O Onomaturgo e Outras Histórias”, com lançamento agendado para 19 de julho próximo.

Num outro conto, que ainda nem publiquei e que ficará para o próximo livro, narro um episódio na vida de um primeiro casal humano, o meu “Gênesis” particular (essa minha mania e de todo escritor de brincar de Deus!), o nascimento do seu primeiro rebento, uma menina. Eles não falam, como é de se supor da primeira leva de hominídeos da História, os homo sapiens de que descendemos; apenas emitem grunhidos, a par de outros meios naturais e intuitivos de comunicação. Nessa narrativa, faço uma ilação sobre quais devem ter sido e como teriam surgido as primeiras palavras pronunciadas, que, parece-me evidente, hão de ter servido para designar cada membro da família primígena.

Não haveria de ser diferente com os idealizadores das primeiras invenções a que denominaram “inteligência artificial”, gênios que desde logo pensaram nos respectivos nomes próprios. E como o objetivo de tais inventos é, e sempre foi, substituir os humanos, nada mais natural que as ditas fossem dotadas de nomes humanos.

Assim é que no filme “Her” o escritor protagonista vivido por Joaquin Phoenix, por exemplo, apaixona-se por Samantha, um computador com quem conversa como se fosse gente. No célebre “Inteligência Artificial”, a própria é um androide infantil chamado David. No clássico “Blade Runner”, o principal androide tem por nome Roy Batty.

Theodore (Joaquin Phoenix) dialoga com Samantha, em cena do filme Her

A ideia inspirou empresas do mundo real, como a Amazon, cujo robô virtual recebeu na pia batismal do deus capitalismo o nome feminino Alexa. Outras lhe sucederam, inclusive em terras brasileiras, como as assistentes digitais de lojas como Magazine Luiza (a Lu) a bancos, como o Bradesco (a Bia). Até nosso glorioso Supremo Tribunal Federal entrou na roda e criou sua Maria.

A Apple inventou uma certa ou certo Siri (ainda não fomos apresentados, não faço ideia de que apito toca), que não é exatamente um nome humano, tampouco parece feminino, mas passa como apelido, como Lula, a exemplo do nosso estimado presidente; talvez seja uma forma sincopada de Siriguejo, nome do caranguejo ganancioso dos desenhos animados, patrão do eterno funcionário do mês Bob Esponja — se bem que o nome original, em inglês, é Krabs, o que destrói a possibilidade de que minha tese seja procedente.

Nessa linha onomatúrgica, pensei num nome para a “IA” que resolvi criar. Para quê? A ideia da finalidade só me surgiu agora, exatamente neste momento em que escrevo este parágrafo: para atender de modo virtual os interessados em adquirir minhas futuras obras impressas. Por sinal, deixo registrado que estas, as minhas obras, minha criação literária, jamais serão fruto dessa tal inteligência artificial. Sou apegado à minha burrice natural e dela não abro mão.

Será, assim, uma espécie moderna de “secretária eletrônica”, a atendente virtual falecida tão jovem, em tempos nem tão remotos, embora suficientes para denunciar a longa jornada de vida de quem, como eu, conheceu e ainda se lembra da pranteada extinta.

Pensei no nome que considero ideal para minha IA: “Iaiá”. Isso mesmo, como Iaiá Garcia, personagem de Machado de Assis que dá nome ao célebre romance do mestre maior da literatura brasileira.

Sei que não é exatamente um nome, no sentido próprio, apenas um designativo, uma forma carinhosa de chamar alguém. Iaiá era como os africanos escravizados chamavam as moças e as meninas de então. Suponho seja corruptela de sinhá, que virou nhanhá, que se transformou em iaiá.

De todo modo, representa uma personagem, uma versão ficcional de alguém real. Olha que pertinente! E, de quebra, remete ao maior escritor que este país já produziu, o que pode ser sinal de descarada pretensão, tão elevada quão descabida, deste pobre plumitivo.

Então, é isso. Quase como o próprio Deus, aliás, mais ousado do que Ele, dou por boa minha obra, mesmo ainda não realizada, apenas idealizada. Agora só me falta desenvolvê-la. Vem logo, Iaiá!

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13/06/2025

É tudo líquido

Carlos Rios, bancário, sente-se satisfeito aos cinquenta e nove anos de idade com seu salário bruto de quase sessenta mil reais por ano, dono de um Verona que comprou zero quilômetro em 1996 e quitou em trinta e seis prestações, renegociadas por mais doze, seguidas de outras doze.

Imagem: PinterestImagem: Pinterest

Ao tempo da aquisição, conheceu Aleteia que, com ares de recatada, costumava atendê-lo na única videolocadora da cidade. Era bela e o cativara por sua timidez, que Carlos interpretara como demonstração de confiabilidade.

No início, era constrangedor. Carlos entrava na loja, percorria em silêncio as gôndolas, escondendo-se para não ser visto; examinava as caixinhas, lia algumas sinopses dos filmes, mas não escapava às orientações da atendente. Aproveitava a promoção de fim de semana e alugava três videocassetes de filmes clássicos, ditos cult, que Aleteia lhe indicava, para no meio deles meter dois pornográficos, que eram os a que de fato ele assistiria. Acostumada com expedientes tais, nada dizia a doce menina, dez anos mais jovem do que o elegante funcionário do banco ao lado. Era letrada, romântica, devoradora de romances de alta vendagem, em geral sem muita densidade literária, e conhecia toda a filmografia disponível no estabelecimento.

A reiteração da conduta dissimulada para escolher os vídeos com a discrição a que Carlos se impunha, que sempre concluía com a cumplicidade de Aleteia, levou-os à confiança mútua que lhes abriu portas para a intimidade. Meses depois viram-se casados, iniciando esperançosos a vida a dois, que o destino anunciava a sete trombetas que tinha tudo para dar certo.

De fato, a vida os colheu no primeiro quarto do novo século ainda casados, crendo-se felizes cada qual a seu modo. Carlos se diz um marido feliz porque tem um bom emprego, que lhe garante o status de bem-sucedido perante os seus, dono de uma casinha financiada pelo mesmo banco que o emprega, que paga mediante descontos em seu salário a juros subsidiados pelo governo que ele vive a maldizer, e o Verona verde, sua paixão, comprado no último ano de fabricação do modelo, que sobrevive à custa de constantes visitas e internações em oficinas mecânicas. Aleteia, porque busca em outros braços, em leitos estranhos, a felicidade que cansou de não encontrar no próprio lar.

Tudo parece bem e Carlos está a assim pensar na fila do supermercado em que se encontra. Tão bem se sente que se permite, em palestra aos circunstantes, espicaçar o governo por querer taxar os que ganham acima de um milhão de reais por mês só para compensar, vejam só se pode uma coisa dessa!, a isenção no imposto de renda que pretende conceder aos que recebem salário de até cinco mil mensais. Não que seja contra a concessão em favor dos mais pobres, mas que não custe o preço de lesar os que são a mola propulsora do nosso progresso, vocifera como se pertencesse à casta superior.

Repete em voz alta a conhecidos e estranhos da fila do caixa, como faz no banco para os clientes, os números e a retórica que ouve de especialistas em reportagens a que assiste no telejornal, sob insuspeito patrocínio da instituição financeira que o emprega. Carlos Rios empresta a tais comentaristas sua assinatura em garantia fiduciária cravando que é bancário há mais de trinta anos e sabe do que está falando.

Está prestes a completar sessenta anos de idade, aposentar-se, e só lamenta não ter ainda atingido a idade oficial dos idosos porque, apesar das cãs que lhe cobrem a cabeça como a neve à velha montanha, não pode ainda fazer uso das vagas preferenciais de estacionamento, nem gozar da prioridade nas filas de espera, mas jura que não faz questão.

Súbito, Carlos se dá conta de que ao lado, na fila preferencial, há uma mulher que carrega um bebê de colo. Repara que é uma senhora cuja idade lhe parece inverossímil a uma mãe puérpera, e muito moça para ser avó. Senhor de suas certezas, não tem dúvida de que se trata de um boneco de silicone, inerte nos braços da falsa mãe, usado apenas como artimanha para garantir preferência no atendimento. E ele atrasado, parado, aguardando sua vez numa fila interminável, contando os minutos que faltam para bater o ponto no trabalho.

Decide impor sua convicção e o que julga seu direito e vai às falas com a mulher, que retruca, faz juras de que não é um bebê reborn, que não faz ideia do que o estranho está falando, que seu filho é sim uma criança de verdade. Tomado por incontível ira em face de tamanha ignomínia, Carlos desfere um tapa no bebê com tal violência que a criança cai dos braços da mãe, vai ao chão e abre um choro doloroso regado ao sangue que esvai de um corte na nuca. É prontamente socorrida e o bancário, detido pelos seguranças, é levado preso em flagrante.

Ao delegado, pede mil desculpas, explica que se enganou, que tem visto na internet tantos casos de mulheres que para obter preferência de atendimento munem-se de bonecos de silicone como se fossem bebês de carne e osso, argumenta que a senhora já não tem idade para ser mãe recente, tampouco para ser avó e que ele é já um idoso, embora ainda não nos estritos termos da oficialidade.

O delegado lavra o flagrante e, compreensivo, cede ao espírito cristão recém adquirido no mercadinho da fé mais próximo de sua casa e se lhe firma a convicção de que de fato não houve dolo, de que Carlos não teve a intenção de matar, que foi induzido ao erro pelas circunstâncias. Ademais e afinal de contas, por sorte a criança sobreviveu. Já não corre risco de morrer, sofreu apenas fraturas e escoriações. O doutor libera-o mediante a paga de módica fiança e à conta do perdão que lhe foi ensinado nas aulas dominicais da igreja que passou a frequentar.

O caso explode na mídia com sensacionalismo, imagens obtidas pela câmera do supermercado viralizam na internet e Carlos perde o emprego, menos por conta da repercussão do que por sua profissão encontrar-se em vias de extinção.

Desgraça é visita que nunca vem desacompanhada e chega sempre nas horas impróprias. Não bastasse estar desempregado e sem outra qualificação, descobre por acaso a verdade sobre Aleteia, que há tempos vem traindo-o com seu antigo chefe, o gerente do banco, logo ele, um de seus melhores amigos desde os tempos de colégio.

Sem recursos para continuar pagando o financiamento da casa comprada no longínquo extremo leste da cidade, perde-a para o banco, o mesmo que até semanas antes o empregava e em nome do qual dedicava-se a convencer os clientes a fazerem negócios financeiros dos quais eles não necessitavam, a taxas de juros escorchantes.

Só, sem emprego e salário, condenado pela sociedade e pela justiça, vê-se numa tarde nublada de inverno sentado na calçada defronte sua antiga casa, com os móveis depositados num velho caminhão de aluguel, sem saber para onde levar o quase nada que lhe sobrou.

Agachado na sarjeta, cabisbaixo, cotovelos sobre os joelhos, as mãos segurando a cabeça, lembra-se dos bons tempos da videolocadora e das fitas que já não mais existem, pensa na antiga profissão que aos poucos se extingue, que por mais de três décadas lhe consumiu as forças, os sonhos e as oportunidades; lamenta a ausência de outra qualificação, ressente-se da felicidade conjugal jamais alcançada em plenitude, da fidelidade não correspondida, e pragueja contra a falsidade de Aleteia.

Pensa nos bebês de plástico, nos negócios lesivos que firmou em nome de seu ex-empregador com promessas de ganhos extraordinários, no bom salário que para tão pouco dava e que se foi, na casinha que se foi sem jamais ter-lhe vindo às inteiras, no Verona que não se fabrica mais desde que o comprou e que Aleteia levou consigo na divisão dos bens por ocasião do divórcio.

Conjectura que a realidade em que vive, líquida e voraz, é como um rio cuja correnteza, cortando um mundo povoado por bonecos de madeira regidos por um invisível Gepeto universal, a tudo e a todos arrasta rumo à concretude das rochas que o aguardam no fundo da queda d’água.

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25/05/2025

O Inabalável Jota

 Jota não estava em seu gabinete quando o telefone tocou. A secretária atendeu e a notícia era grave: a mãe do poderoso chefão havia falecido. 

Sem pestanejar, Marta ligou para o celular do chefe. A ligação foi atendida por um dos seguranças. “Ele está no mar, andando de jet-ski”, respondeu Merci, um policial destacado para a atividade.

“É urgente”, insistiu Marta, passando os dedos por entre seus longos cabelos amendoados que lhe escorriam pelos ombros. Transmitiu a notícia em palavras atropeladas. “Vou ver o que posso fazer”, avisou o outro.

Merci pegou um jet-ski e foi ao encontro de Jota. Ao se aproximar, deu sinais para que parasse e o ouvisse, mas o chefe estava muito feliz com o passeio, nada poderia interrompê-lo. Merci gritava é urgente, sem que Jota o escutasse.

Demorou até que, enfim, Jota parou.

— Que foi, Paraíba? Que que ‘tá acontecendo? Morreu a mãe de alguém?

— Isso mesmo, senhor.

— Vai me dizer que morreu a mãe do Trump. 

— Não exatamente…

— Menos mal. Eu ficaria muito sentido se fosse a mãe do Trump. Qualquer outra, eu não teria o mesmo sentimento — disse, lançando uma risada engasgada, expondo os dentes cerrados, a meia boca esticada em direção às orelhas.

— Gosto muito do cara, ‘cê sabe — completou Jota.

Ambos retornaram com os jet-skis até se reunirem em chão firme.

— E então, morreu a mãe de quem? Do português da piada? Hahaha! Conhece a piada do português que veio para o Brasil? Não conhece? Vou contar, então. Ele deixou em Portugal um gato para ser cuidado pelo amigo Manoel. Hahaha. 

— Senhor… — tentou interromper Merci, sisudo.

— Calma, rapaz! Por que a pressa? Por acaso foi sua mãe que morreu? Se foi, pode ir embora, está liberado por hoje — disse, escarcalhando novamente. 

— Não, não foi...

Jota o interrompeu e prosseguiu:

— Então. O português veio pro Rio de Janeiro, ‘tava lá de boa curtindo uma praia, tomando uma caipirinha, mulherada em volta… Hahaha! De repente, toca o celular. Era Manoel. Joaquim! Teu gato morreu! Hahaha.

Jota enrijeceu a musculatura facial, travou o riso e alçou as sobrancelhas, à espera de uma reação do segurança, que não veio. Continuou: 

— O português desmaiou, foi levado pro hospital. Quando se recuperou, ligou pro compadre e deu-lhe uma bronca. Quase me matas, ó Menuele! 

Jota fez um movimento com o corpo como se mudasse de personagem, a mão à orelha, em concha. 

— Mas como eu deveria ter dado a notícia?, perguntou Manoel. Hahaha! 

Fez outro movimento com o corpo e mudou a mão de orelha:

— Ora, devias ter me preparado para a má notícia. Primeiro, tu me dizias, Joaquim, teu gato subiu no telhado. Um tempo depois, me avisavas que o gato caiu do telhado. Por fim, eu já com o espírito preparado, aí sim tu me contavas a fatalidade!

Jota olhou fixamente para Merci, esperando arrancar-lhe uma risada, uma expressão de surpresa, que de novo não se apresentou. Sem perder o ânimo, retomou a contação:

— Manoel então disse que havia compreendido e, tudo bem, aquilo não aconteceria mais, e Joaquim voltou à praia. ‘Tava lá tomando uma cervejinha, comendo um camarãozinho e coisa e tal, quando, de repente, toca o celular. De novo, era Manoel. Hahaha! 

Jota levou a mão mais uma vez ao ouvido:

— Ó, Joaquim! Tua mãe subiu no telhado! — e desabou em nova gargalhada.

Merci permaneceu impassível, confrangido. 

— Ô, Paraíba! Não achou graça? Ria, rapaz! Ô sujeito mal-humorado.

O segurança mal foi capaz de esboçar um sorriso contido. Já não sabia como dar a notícia. Sentiu-se tomado por um desejo mórbido de dizer senhor, quem subiu no telhado foi a sua mãe, mas o só pensar nessa possibilidade lhe causou o desconforto de um profundo remorso.

— Desembucha, rapaz! Fala aí, a mãe de quem morreu? Vai dizer que, por coincidência, foi a mãe do Joaquim? — e gargalhou com mais intensidade.

— Quase isso — deixou escapar Merci e se arrependeu imediatamente.

— Como assim, quase isso, oxente? — repetiu Jota, imitando-lhe o sotaque e debochando do auxiliar.

— Sua mãe, senhor. Sua mãe, infelizmente, ela… faleceu. Marta acabou de telefonar. Meus sentimentos.

O semblante de Jota alterou-se com vagar, do meio sorriso de dentes cerrados para uma fisionomia fechada, quase de surpresa. Lançou um olhar severo para Merci, desvencilhou-se da boia que ainda envolvia seu corpo e perguntou:

— Por que não me disse logo?

Merci preferiu não responder.

— Quando foi?

— Hoje. Talvez ontem, Marta não soube dizer. Ligaram há pouco do asilo.

Jota voltou para o hotel. Foi de helicóptero para a pequena cidade onde a mãe passara toda a vida. A aeronave pousou num descampado próximo do cemitério em que o corpo era velado. Tomaram o automóvel que já os esperava e rumaram para o velório.

— Vamos lá, Paraíba — disse Jota ao descer do veículo, ajeitando seus óculos escuros e alisando os cabelos. Merci fez o mesmo com os próprios óculos, deu batidas no terno, puxou-o para baixo a esticá-lo, ajeitou a gravata de listras verdes e pretas e seguiu o chefe.

O modesto edifício compunha-se de um amplo salão de entrada, uma pequena cozinha, dois banheiros, e se dividia em três câmaras desprovidas de janelas. Duas delas estavam vazias. Misturavam-se no ar aromas de café e chá de capim-limão. Jota caminhou até onde era velado o corpo da mãe. 

Merci e os outros dois seguranças mantiveram-se em seu entorno, o que despertava curiosidades e burburinhos entre os presentes. Poucas eram as pessoas no local. A falecida era bem avançada em anos, beirava o centenário; havia décadas que residia num asilo, onde o filho a visitara duas ou três vezes.

Perpedina, irmã caçula da defunta, observou o sobrinho caminhar com dificuldade, as pernas abertas como um montador de animais, o abdômen imenso, a cara amarrada que há vários anos acostumara-se a só ver pelo noticiário da TV e redes sociais. Acompanhou-o com o olhar desde que ele cruzou o portal de entrada até se posicionar ao lado do esquife, próximo da cabeça da genitora. Jota não chorou. A tia reparou quando ele, decerto em gesto de reverência, como se tirasse um chapéu da cabeça, retirou os óculos de sol e os segurou às costas. Notou quando ele fixou seus olhos no cadáver da mãe, sem que o tocasse. Nenhuma lágrima deixou escapar, nenhum fio de sangue avermelhou sua esclera. O cheiro das velas a queimar havia sobreposto os de café e capim-limão da entrada. 

Assim permaneceu Jota por cerca de meia hora, até que um homem alto, de meia idade, esguio e vesgo, metido num surrado terno preto de microfibra, a camisa branca amarelecida sobre a qual jazia uma gravata vermelha descorada pelo uso, pediu licença para colocar a tampa sobre o caixão. 

A irmã solicitou que antes pudesse fazer uma oração e assim lhe foi permitido. Ainda incomodada com a ausência de reação do sobrinho, Perpedina puxou três ave-marias e um pai-nosso. Notou que Jota não acompanhou a reza e não moveu um único músculo da face. 

— E levai as almas todas para o céu. Em nome do Pai, do Filho… — rezou Perpedina, acompanhada por quase ninguém. 

Terminada a encomendação do corpo feita de improviso, que mal durou dez minutos, o homem vesgo da funerária reaproximou-se e girou com firmeza um a um os parafusos dourados da urna mortuária. Certificou-se de que o serviço fora executado com perfeição, de modo a garantir a segurança necessária, recolheu as coroas de flores, uma delas ofertada pela própria agência funerária, a outra providenciada pela diligente Marta. Caminhou em direção à saída do prédio, diante do qual estava parado o veículo fúnebre. Abriu-lhe a porta traseira e deu sinal aos presentes de que já poderiam carregar o ataúde até ali. 

Embora fossem necessários seis carregadores, apenas cinco homens se apresentaram. Três eram Merci e seus colegas da segurança; os demais, um sobrinho mais velho do que Jota, com ar cansado, a quem o primo cumprimentara a distância, apenas por troca de olhares, e Pérez, um estrangeiro bastante idoso que residia no mesmo asilo da falecida. Viera a pé, sozinho, pois o asilo ficava a menos de dez quadras dali. Costumava dizer que o albergue onde vivia era um passo anterior ao cemitério. Não poderia faltar ao adeus derradeiro à amiga. 

Todos a postos, faltava um sexto braço forte e os olhares se voltaram para Jota, que se manteve impassível. Não havia outro homem no interior da câmara-ardente. Só quando tia Perpedina, expondo as dificuldades da idade avançada, se apresentou para carregar o caixão foi que ele, num ato semelhante ao de generosidade, sussurrou-lhe:

— Pode deixar, tia. Eu levo.

Caminharam uns poucos metros até o veículo, dentro do qual depositaram o caixão. O agente funerário fechou a porta traseira e conduziu lentamente o automóvel, acompanhado pelos presentes, que o seguiam a pé. 

O portão de entrada do cemitério ficava a uns cem metros do espaço destinado ao velório. Ao longo do trajeto, Jota perguntou ao segurança:

— Paraíba, que dia é hoje?

— Sexta-feira — respondeu Merci. 

— ‘Tô perguntando número, Paraíba. Que é sexta-feira eu sei. Sextou! — disse, contendo um riso inoportuno.

Merci respondeu que era 22.

— Olhe a placa do carro. Termina com 22. É um sinal.

O segurança não entendeu, tampouco perguntou a que sinal o chefe se referia. 

O veículo adentrou o cemitério, seguindo o tempo todo em velocidade que pudesse ser acompanhado pelos poucos que o seguiam, e parou a dez metros da sepultura.

O caixão foi baixado pelos funcionários do cemitério. Retiradas as cordas, eles cobriram a cova com placas de concreto, que vedaram com argamassa já preparada. Ninguém lançou flores sobre o ataúde. Em seguida, passaram a assentar alguns tijolos até vedar completamente o sepulcro. 

O agente funerário depositou as duas coroas sobre o jazigo. Seu olho direito insistia em olhar para o chão. Cumprimentou os que ali permaneciam e partiu. 

Só Perpedina chorava, com discrição. Jota ficou até que o último tijolo fosse assentado, sem dizer palavra. A tia o convidou para tomar um café em casa, mas ele recusou. Alegou falta de tempo, compromissos inadiáveis, sem contar que o café lhe provocava azia, do que resultava terrivel dor no estômago. Não se lembrou de perguntar à tia como tem passado. Ela o abraçou e se despediram.

Jota e os seguranças iniciaram o caminho de regresso. Os rapazes se distraíam lendo os epitáfios, maravilhados com a antiguidade de muitos dos jazigos. Algumas lápides registravam a chegada de imigrantes alemães e italianos à cidade no final do século XIX. Outras exibiam homenagens de filhos aos pais, de esposas aos maridos. Estátuas de anjo sobrepunham-se a sepulturas de caprichada construção em que se liam as datas de nascimento e morte de crianças, a maioria em tenra idade, ao lado dos nomes. Pérez vinha atrás, solitário em seu difícil caminhar.

— Você viu o número da sepultura, Paraíba? — indagou Jota, referindo-se ao sepulcro da mãe.

— Não, senhor.

— 22. Mais um sinal. 

Merci, de novo, nada disse. Não conhecera a mãe de Jota, mas trazia os olhos vermelhos e uma lágrima triste escorria-lhe pelas faces suadas, coradas pelo sol que se exibia pleno. Pensava na velha, na gelidez de seu rosto inerte, extinto; olhava para Pérez, cada vez mais distante, desaparecendo no declive, e refletia sobre o custo de uma amizade.

O automóvel os esperava à porta do cemitério. Jota sentou-se no banco ao lado do motorista e ordenou:

— Toca para uma casa lotérica.

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30/04/2025

Criadores de casos #25